Contos do Horror Alternativo Apresenta: Sozinha

 

 

Finalmente eles saíram de casa! Minha família é legal, mas de vez em quando, vou falar… Chatice para mais de metro! Finalmente estou sozinha. Os habitantes dessa residência, assim como gosto de chamá-los, saíram para uma festa de aniversário de uma prima em outra cidade, eu não suporto a pirralha, assim eu não precisei ir, minha família entende… Vou permanecer em casa, sossegada, dar risada e ficar de pernas para o ar a noite inteira, eles só devem voltar amanhã cedo. “Não tem medo de passar a noite sozinha, porquinha?” perguntou meu irmão antes de sair, “Se tenho medo?” respondi “Tenho é necessidade!”. Ele nunca entenderia… Pobre animal.
Faço aquele café mais maroto que o sorriso e separo meus filmes do Tarantino pra virar a madrugada assistindo, meu cobertor será minha companhia, assim como as bolachas na cozinha.
Perfeito! São exatamente vinte e duas horas, não há mais ninguém por aqui além de minha pessoa. Saio da batcaverna, meu quarto, e vou correndo para a cozinha. Disse que não tenho medo de ficar sozinha, mas aquele corredor é macabro! Sério, qualquer ser humano em sã consciência iria se revirar de tremeliques se estivesse sozinho em um casa a noite e visse vultos pelos cômodos… Credo! Quero nem pensar.
Moro nesta casa há cinco anos, a mudança foi realizada no meu aniversário de doze, e desde essa época, é a primeira vez que me deixam só. Mesmo morando esse tempo todo nessa humilde residência eu sempre tropeços nos resaltos de piso, aqueles malditos degraus, e infelizmente hoje não é diferente. Correndo para a cozinha, sem reparar no resalto, eu tropeço e vou de encontro ao chão, o tombo foi feio… Bati a cabeça na quina da pia, tudo ficou escuro por um tempo, mas eu não cheguei a desmaiar, eu acho.
Levanto do chão com a mão na testa, está doendo menos que eu esperava. Talvez eu já tenha me acostumado aos galos em minha cabeça, a cada semana acontece à inauguração de um. Eu pego o pano de prato em cima do fogão e abro a geladeira, com minha bolsa de gelo improvisada fazendo pressão sobre o novo hematoma, volto à busca por bolachas e café. Carregando tudo o que consigo com a camisa velha e grande em forma de bacia, volto para o quarto, preciso de mais uma viagem para pegar a cafeteira. Com minha fonte de energia em mãos eu entro no quarto e fecho a porta utilizando o calcanhar, coloco tudo em seu devido lugar, de modo estratégico e prático. Agora posso começar a maratona Tarantino, o primeiro filme? Cães De Aluguel, lógico! A cena da tortura é clássica, gargalhei bastante a primeira vez que assisti, mas me senti culpada depois… Fazer o que, né!?
Estou na escrivaninha onde coloco o computador, o filme já começou, com a xícara de café na mão, enrolada no cobertor e fitando a tela, tento notar cada detalhe das cenas, deve ser a quinta vez que eu assisto este filme, mas é tão divertido e irreverente quanto à primeira. A noite é fria e trás consigo um vento gelado que acerta o lado direito do meu rosto, estranho já que a janela fica do lado esquerdo e ela está trancada, girando o rosto eu vejo a porta do meu quarto aberta, o que também é estranho, juro que eu a havia fechado. A visão daquele corredor escuro me assusta. A cozinha está um completo breu, eu fico encarando a escuridão como se eu esperasse por algo, e infelizmente, o esperado vem de uma forma macabra.
— Ovon ed ratam et uov. — esta frase veio da cozinha na forma de um sussurro extremamente algo, Deus, os cabelos da minha nuca arrepiaram, uma sensação horrível percorreu meu corpo, fiquei estática, paralisada de medo. A única coisa que passou pela minha cabeça foi pegar o celular e implorar para que meus pais voltem o mais rápido possível, mas eles devem estar no meio da estrada, o melhor que posso fazer é levantar da cadeira e trancar a porta do meu quarto. Caso não seja algo sobrenatural, a porta deve impedir que, quem quer que seja, me alcance… Assim espero.
Saio debaixo de meu cobertor e com um salto eu alcanço a porta, a chave fica na tranca, a giro e respiro fundo com os olhos fechados.
Bum!
A forte pancada na porta a fez tremer e eu tremi junto, abri os olhos e não acreditei, eu estava na cozinha, ao lado da pia. Olhei em volta assustada, todas as luzes da casa estavam acesas, o local onde eu havia batido a cabeça estava marcado com um X enorme, vermelho e mal desenhado, parecia ser pintado com sangue. A mesma marca, mas de tamanho reduzido, estava na geladeira, na mesa de jantar, na porta a minha frente… Ela se repetia várias vezes pela cozinha. Estou apavorada, corro em direção ao meu quarto, abro a porta e me deparo com todas as paredes de minha batcaverna rabiscadas, haviam centenas, não, milhares de rabiscos em forma de X espalhados por todo o canto. Meu celular está em cima da cama, vou na lista de contatos e ligo para minha mãe, não obtenho sucesso nessa tentativa, talvez o celular dela esteja fora de área. Escuto outro sussurro idêntico ao primeiro, este ainda mais alto, parecendo que veio de dentro do quarto. Não quero ficar aqui!
Corro para fora daquele cômodo e vou para o banheiro, tranco a porta e me sinto segura do lado de dentro, suspiro e fecho os olhos, esse movimento acalma minha ansiedade. Ao abrir os olhos eu encaro o teto, lágrimas escorrem por meu rosto ao ver todas aquelas marcas de X sobre minha cabeça, mal consigo ver a antiga cor branca do teto. Meus cabelos movem-se para frente, uma pequena corrente de ar causou esse movimento, pequena como se fosse causada pela expiração de uma pessoa. Eu me atrevo a olhar para trás, no reflexo do vidro do boxe eu vejo uma imagem demoníaca, o vulto com olhos amarelos e chifres curvados faz com que eu grite alto. Viro rapidamente o corpo, destranco a porta e saio do banheiro, corro para a sala de estar, a única saída da casa fica neste cômodo.
Para minha surpresa, eu vejo um rosto familiar na sala, meu irmão está sentado no sofá, o móvel está cheio das marcas X vermelhas, o meu irmão mais velho parece calmo, ele fita as próprias mãos.
— Meu! Tem treta nessa casa! — eu grito. — Vamos sair daqui!
— Dessa vez você foi rápida… — responde meu irmão em um tom frio. Agora ele está me encarando. — Você chegou mais longe, eu deixei isso acontecer.
— O que? — estou confusa, do que esse idiota está falando? — Eu não tenho tempo pras suas maluquices, onde estão o pai e a mãe?
— Mortos.
Ouvir aquela palavra deixou-me estática, eu devolvi um olhar frio, mas com lágrimas escorrendo pelas bochechas.
— O… O que você disse? — pergunto enquanto fecho os punhos com força.
— Eu adoro sua cara quando eu digo isso! Acho que nunca vou me cansar! — responde meu irmão, ele gargalha e depois fica sério novamente. — Não duramos nem uma hora na estrada! Um caminhão, talvez o motorista estivesse bêbado, nos jogou para fora da estrada… Mãe, pai e eu, morte instantânea.
— Isso é mentira! Não pode ser! — grito perante meu irmão. — V… Você está aqui, não pode ter morrido…
— Aí que vem a parte engraçada. — ele levanta do sofá e perambula pela sala, dando voltas em torno de mim.
— Depois que eu morri, não encontrei nossos pais do outro lado, talvez eles foram para um lugar mais agradável. Já eu… Bem, digamos que eu fui para onde gente ruim vai, ah se eu soubesse que o inferno era real, que as histórias da igreja eram verdade… Enfim, eu fui torturado pelo que pareceram séculos, nossa, como eu sofri. Sofri até que recebi uma proposta, uma bem legal aliás, “deixar de ser o torturado e começar a torturar”, nem preciso dizer que aceitei de primeira.
— Deus… Como você pode?
— E por que não? Eu sofri demais, estava na hora de passar adiante o fardo. E advinha quem é a primeira alma que eu devo torturar? Isso mesmo irmãzinha… A sua!
— E… Eu, eu estou morta? — abraço-me com força, passo a mão no galo em minha testa. Tudo o que ele disse passa novamente por minha mente, abaixo a cabeça e deixo as lágrimas escorrerem por meu rosto. — P… Por quanto tempo eu estou morta?
Meu irmão gargalha.
— Nós estamos nesse jogo há um tempinho. — ele responde. — Você acorda sem memórias do último ocorrido, volta para o seu filme idiota, eu te mato, deixo aquela marca de X com seu sangue no local, e começamos tudo de novo, sempre é de uma forma diferente… A cada vez você fica mais fria, não é legal?
— Seu monstro! — grito com raiva, Deus, todas aquelas marcas pela casa, todas elas foram uma morte minha? Deus… Por que estou aqui? Por que vim para o inferno?
— Sim, eu sou. E estou longe de me enjoar desse jogo, comece a correr porquinha. — Os olhos de meu irmão tornaram-se amarelos, seu corpo começou a se transformar em um vulto e chifres surgiram em sua cabeça. — Comece a correr ou eu te pego.
Ele me ataca com o braço direito, garras negras cortaram o ar, eu desviei por pouco. Girei o corpo e sai pela porta de acesso sala/garagem, corro para o portão e depois para a rua. Do lado de fora da casa tudo permanece igual, mentiroso! Eu não morri com aquela pancada na cabeça, eu não estou no inferno, eu estou viva! E preciso encontrar meus pais.
Vou para a casa do vizinho, talvez ele me deixe usar o celular ou me esconder por um tempo, ainda estou sã o suficiente para não contar a verdade, ele vai achar que estou louca. Bato na porta de sua casa, olhando para os lados e morrendo de medo enquanto imagino que meu irmão saiu para me pegar, o vizinho abre a porta e eu peço seu celular, após um tempo de espera ele me empresta o aparelho. O maldito celular possui a tela riscada, a marca X. Olho para meu vizinho e encontro o vulto que antes era meu irmão, dessa vez eu não pude desviar a tempo, suas garras negras foram rápidas demais pra mim.
Salva pela luz, um feixe sobre meu corpo afastou o vulto, olho para trás e vejo o carro de meus pais, como um farol na mais sombria tempestade no mar. Meu sorriso não cabe no rosto, corro de encontro á eles, meu pai sai do veículo e eu pulo em seus braços, nunca lhe dei um abraço tão apertado.
— Filha? — ele diz assustado. — O que estava fazendo aqui há essa hora?
— Pai. — respondo preocupada. — não entre na casa, meu irmão está lá.
— Do que está falando, garota? — minha mãe diz, em um tom apático. — Seu irmão está aqui no carro.
— Essa porquinha é doida mesmo. — diz o maldito.
Agora nada mais faz sentido… O que está acontecendo? Meu irmão está aqui, minha família está bem, será que estou ficando doida? Que tudo foi uma alucinação?
Entramos em casa, não há nenhuma marca X por aqui, enquanto minha mãe explica que o tráfego está inacreditável “tão lotado que parece até carnaval” como ela diz, meu pai tira o casaco e o coloca sobre o sofá, essa atitude sempre irrita minha mãe, ela chama a atenção do folgado que devolve um sorriso de desculpas. Cheguei a pensar que nunca mais iria vivenciar essa cena tão comum, chorei de felicidade, chorei quando minha mãe beliscou meu pai e quando meu pai fingiu que havia doído, mas parei de chorar assim que ele tirou o casaco do sofá e por baixo eu vi a marca X. E então, mais rápido que um suspiro, vejo a garra negra de meu irmão atravessar minha barriga, após vê-lo desenhando o maldito X no sofá, ao lado do já existente, eu volto a ver a escuridão.
Levanto do chão com a mão na testa, está doendo menos que eu esperava. Talvez eu já tenha me acostumado aos galos em minha cabeça, a cada semana acontece à inauguração de um. Eu pego o pano de prato em cima do fogão e abro a geladeira, com minha bolsa de gelo improvisada fazendo pressão sobre o novo hematoma, volto à busca por bolachas e café. Carregando tudo o que consigo com a camisa velha e grande em forma de bacia, volto para o quarto, preciso de mais uma viagem para pegar a cafeteira. Com minha fonte de energia em mãos eu entro no quarto e fecho a porta utilizando o calcanhar, coloco tudo em seu devido lugar, de modo estratégico e prático. Coloco as mãos na cintura e suspiro, sinto uma tristeza, mas não é nada sério. Eu gosto de ficar assim, sozinha.

Por Sávio Ba†ista

 

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