Contos do Horror Alternativo Apresenta: Obra De Arte

Ninguém nunca entenderia a natureza de minha mais verdadeira felicidade.

Eu sou um bom homem, alguém gentil e honesto. Sempre pensei, e ainda penso, que a melhor batalha é aquela evitada. Atualmente eu tenho quarenta e cinco anos e sou um morador das ruas, mas não me julgue antes de saber minha história, a qual causaria arrepios em qualquer homem são.

Há exatamente dez anos eu estava passeando pela cidade com a família, minha linda esposa e meus alegres três filhos. Estávamos caminhando pela vizinhança, eu de mãos dadas com a minha esposa, meus filhos andando à nossa frente, a mais velha, que na época tinha onze anos, levava consigo um picolé de limão, os gêmeos de sete anos dividiam um pequeno pote de sorvete, eles riam e faziam piadas, sem dúvida alguma é o som mais agradável que um homem poderia pedir a Deus.

Algo chama a atenção de minha esposa, ela aperta meus dedos entre os seus e me olha com o sorriso mais lindo que algum dia já existiu.

— Olha amor! — minha esposa apontou para o outro lado da rua, onde havia uma pequena loja de conveniências na calçada. — Estão vendendo quadros e nós precisamos de um pra colocar na sala!

— Tudo bem… — respondi fingindo estar animado, ao contrário de minha esposa eu não sou apaixonado por arte, mas não quero mostrar descontentamento. — Vamos lá ver algum.

Eu chamei a atenção de nossos filhos e todos nós entramos na pequena loja. Minha esposa soltou-se de minha mão e começou a tatear os quadros, eles estavam em fila sobre uma mesa improvisada, a dona da loja veio saber se já tínhamos escolhido algum, mas o preço dos quadros permitia somente a compra de um, e minha esposa ficou indecisa entre três. No primeiro, a imagem retratava um cavalo empinado e no fundo um celeiro com uma família observando-o; o segundo, o mais impressionante em minha opinião, continha a pintura de uma mulher utilizando roupas do século XVIII, seu rosto estava coberto por uma máscara branca de face sem expressão; no terceiro quadro havia um navio em alto mar, dos três, esse era o mais sem graça.

— Amor. — ela falou fitando os quadros e cobrindo os lábios com os dedos curvados, gesto que sempre fazia quando está pensativa. — Qual você acha que vai combinar com nossa sala?

Eu não fazia ideia de qual combinaria mais, então olhei para meus filhos e perguntei a eles, minha primogênita escolheu o do cavalo, cada um dos gêmeos escolheu um diferente entre os dois que restaram. Os votos não serviram de nada, olhei para os quadros e apontei para o do cavalo, mesmo que não seja meu preferido, devia ser o que mais “combinava” com a sala, eu acho.

— Não… — respondeu minha esposa, enquanto passa a mecha de cabelo para trás da orelha, revelando uma pequena pinta na parte superior, sempre fui apaixonado por aquela marca. — Vou levar esse da mulher mascarada, é bem bonito e charmoso. Vai combinar com a sala.

— Como a senhorita quiser, amor. — falei tirando a carteira do bolso.

— Ei! — respondeu minha esposa com as mãos na cintura. — Eu quero o quadro, eu vou comprar e pagar, ok?

— Tá… — respondi levantando as mãos. Sempre me esqueço do posicionamento dela perante essas coisas. — Vamos voltar ao carro crianças.

Após a curta viagem de carro, nós chegamos a casa. Minha esposa não perdeu tempo e pendurou o quadro na parede à esquerda do sofá. Algumas horas depois, a família toda estava na sala de estar, assistindo aos programas dominicais, a situação se manteve até que chegou a hora das crianças irem para a cama. Com os encrenqueiros gêmeos já adormecidos, assim como a minha primogênita, a linda esposa veio avisar que também estava indo dormir.

— Vou acabar de ver o programa e também estou indo, amor. — respondi com um sorriso no rosto.

Ela sorriu de volta e foi para o quarto. Eu continuei na sala assistindo TV até que me peguei encarando o novo quadro, aquela pintura despertou minha curiosidade, fiquei imaginando como seria o rosto da mulher sob a máscara, porque alguém pintaria algo tão enigmático. Teorias surgiram em minha mente, talvez aquela pintura fosse um retrato de uma baronesa com algum tipo de doença na pele, ou que talvez tenha sofrido um acidente, ou ainda que queira esconder a beleza que chegou a ser tão impactante que não pode ser retratada. Pensei em várias outras situações, mas nenhuma delas me agradou o suficiente para que fosse dita como a verdade.

Minha esposa entrou na sala, ela me viu fitando o quadro e reagiu negativamente.

— Você ainda está aí? — ela falou com os braços cruzados, sua expressão aparentava sono e preocupação.

— Sim amor, pode voltar a dormir, eu já estou indo.

— Que história é essa? Você precisa é ir trabalhar!

— O que? — arregacei a manga da blusa e olhei em meu relógio no braço esquerdo que eram exatamente nove horas da manhã.

Pulo do sofá e vou direto ao banheiro, escovo os dentes e troco de roupa, já estou uma hora atrasado para o trabalho, não entendo como isso pode ter acontecido, passar a noite inteira fitando o quadro e me perder em meus próprios pensamentos.

Durante meu expediente, o dia correu como qualquer outro, mas diferente dos demais, dessa vez eu não fiquei louco para voltar para casa e abraçar minha família, mas sim em voltar à sala de estar e reparar em cada detalhe daquele quadro. Sentia que algo surpreendente está escondido no meio daquelas pinceladas.

Não aguentei esperar o fim do expediente na oficina, saí sem meu chefe perceber e fui direto para casa. As crianças ainda estão na escola e minha esposa no trabalho, “Vou poder ficar a sós com meu quadro” assim pensava. Eu sentei no sofá e comecei a admirar aquela obra de arte, a mulher no quadro possuía cabelos negros, na máscara branca havia marcas que imitam a forma de um rosto comum, não se podia ver os olhos da mulher, somente um breu nos buracos da máscara, ela usava uma gargantilha carmim e um vestido negro como a noite, seus braços estavam cruzados como se estivesse com frio, suas mãos eram tão delicadas… Ó Deus, como eu queria que aquelas mãos estivessem sobre mim agora.

Fui empurrado com força, ao olhar para o lado vejo minha esposa segurando um prato com o jantar, um dos gêmeos carrega um copo de refrigerante, o outro o controle remoto.

— Para de encarar esse quadro e vai jantar. — disse minha esposa, meus filhos se aproximaram e deixaram o que carregavam no chão, próximo ao sofá. — Hoje a noite começa o meu plantão no hospital. — ela continuou a falar, precisei fazer um enorme esforço para não virar o rosto e continuar olhando meu quadro. — Sua filha precisa de ajuda em matemática, ela está no quarto estudando, depois do jantar vá ajudá-la, ouviu?

— S… Sim amor, pode deixar comigo. — respondi em um tom distraído.

A bela enfermeira sai da sala de estar com passos largos, os gêmeos vão para o quarto deles, brincar com o videogame, e eu… Bem, eu nem toquei na comida, tudo o que precisava estava à minha frente, pendurado na parede. Fiquei intrigado como algo pode ter chegado a tamanha perfeição, como uma mulher que eu nunca vi o rosto pode em deixar tão fascinado…

Outro empurrão em meu ombro, desta vez é minha filha, ela está passando a mão nos olhos, aparentando sono, em sua pequena mão está o caderno de matemática.

— Pai… — ela falou em um tom sonolento. — Já são quase três horas da manhã, a prova é amanhã de tarde e até agora eu não estudei direito, o senhor pode me ajudar?

— Claro!

A pobre garota tentou me perguntar sobre uma questão, mas eu estava muito distraído com o quadro para responder, ela se irritou com a situação e fez algo imperdoável.

— Agora você só liga para esse quadro idiota! — ela grita e arremessou o caderno que acertou em cheio a obra, fazendo-o soltar da parede e cair no chão.

Meu ataque de cólera foi imediato, como resposta, eu ataquei minha filha.

— Como você pôde fazer isso? — eu gritei enquanto esmurrava a criança com toda minha força, ela caída no chão e eu desferindo meus socos em sua cabeça.

O sangue escorreu pelo chão, fiquei assustado e parei de bater ao pensar que o sangue poderia sujar o quadro, levantei-me e segurei a obra de arte com a boca, minhas mãos estavam sujas e isso poderia danificar o objeto.

Para a minha surpresa, um milagre aconteceu! Os cabelos da mulher mascarada, antes negros como a noite, estavam castanhos, idênticos aos da minha filha. Isso deixou a obra ainda mais rica, mais impecável… Fiquei maravilhado com tal coisa, eu chorei de emoção. Deus, como algo pode ser tão perfeito?

Deixei o quadro no sofá, seguro, e levei o corpo de minha filha para jogar na piscina, talvez alguém o ache e diga que ela se afogou, eu lavo as mãos para poder pendurar novamente o quadro, mas quando volto à sala de estar e ocorre um pensamento maravilhoso em minha mente iluminada “Se minha filha morreu perto da obra e esse milagre aconteceu, será que pode acontecer novamente?”.

O pensamento me encheu de alegria, eu não consegui me conter, tenho que fazer… Vou à garagem e pego meu martelo, em seguida eu corro para o quarto dos gêmeos “Dois milagres!” eu penso.

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As marteladas são abafadas pelas batidas em meu coração, a cada golpe eu imaginava qual seria o próximo detalhe, sinto uma alegria divina em minha alma, eu nunca tive um sorriso tão grande no rosto. Saio do quarto e vou para a sala, ao encarar o quadro deixo o martelo cair no chão, eu caí ajoelhado e chorei de emoção, agora a mulher misteriosa tem olhos por trás da mascara. Olhos! Lindos olhos castanhos, como os de meus filhos. É um milagre!

Eu admiro a beleza do quadro até que minha esposa entra na sala e me encontra naquele estado, eu continuava ajoelhado e em prantos, com um sorriso no rosto ensanguentado, eu a olhei com alegria.

— Venha amor. — falei euforicamente. — Eu retoquei o quadro, ele está ainda mais perfeito. Eu sou um ótimo pintor… Eu fiz um milagre!

— Isso já foi longe demais. — ela respondeu, minha esposa também está chorando, talvez ela tenha se emocionado com o quadro. — O… Onde estão nossos filhos?

— Eles estão lá. — respondo apontando para a obra. — Eles são algo maior agora, eles viraram arte.

Ela não me deu ouvidos, minha esposa correu para o quarto e achou os corpos. Eu… Eu não tive escolha, ela não sabe apreciar a verdadeira arte, iria chamar a polícia e me separar de meu quadro… Isso seria inaceitável! Eu pego o martelo e vou para o quarto, a encontrei ajoelhada, segurando nossos filhos nos braços, ela tentou gritar por ajuda, mas outro milagre viria a acontecer.

Como uma pessoa magra e linda como ela pode ser tão resistente? Tive que martelar várias vezes até que ela parasse de se mexer, mas eu fiz do modo como uma artista deveria fazer.

O martelo é o meu pincel.

Após terminar com ela, eu volto para a sala e encontro à obra de arte. Agora a mulher do quadro possui a mesma pinta que minha esposa havia na orelha, aquela mancha que eu tanto amava agora está imortalizada na pintura. Eu choro diante daquele milagre.

Alguém poderia tentar me separar de meu quadro. Inaceitável! Eu peguei a obra e fugi de casa, vou começar minha jornada como pintor. “Irei morar nas ruas, onde posso encontrar tintas facilmente”.

Hoje faz dez anos que eu fugi da minha casa, dez anos que eu carrego essa obra de arte, dez anos que eu acrescento detalhes à obra todos os dias, e temo com alegria que meu trabalho está longe de acabar.

Por
Sávio Ba
ista

 

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