abr 232017
 

As batidas compassadas do relógio há marcar as horas, tão vigorosas e constantes, contrastam com as de meu coração que a cada minuto se torna mais fraco, alertando que meu fim será breve.

Nesta triste e velha cama de hospital, o melancólico relógio que se destaca negro e acusador na cama à minha frente, infelizmente é a única companhia que me resta nestes tristes instantes de agonia e dor.

Abandonado por todos que falsamente diziam me amar, me deixei abater pelos problemas, ficando à mercê de conflitos e desafios que pouco a pouco flagelaram meu corpo e minha alma. Logo já não conseguia me alimentar e em menos de um mês meu coração demonstrava indícios de parada prematura; não me importei devido ao enfraquecido estado de espírito em que me encontrava e também não fui capaz de admitir que houvesse me tornado um viciado nojento, não conseguia enxergar meu estado mental confuso nem meu corpo cadavérico. Hoje, largado nesta cama de hospital, sinto falta do nada que deixei para trás, anos e anos de vida inútil, pessimamente aproveitada; estou agora prestes a terminar na solidão total de um leito enferrujado; somente as batidas do relógio acompanham meu sofrimento e vigiam meu sono perturbado.

As horas vão passando, a morte está cada vez mais perto, posso senti-la em meu sangue; sei que tudo estará terminado antes das doze badaladas e ela já está aqui, posso vê-la como um ser palpável, o sopro frio e as garras afiadas da dama das trevas tocando minhas carnes, o fim vazio que tanto temi durante a vida se concretiza e eu estou sozinho, lamentando o triste destino que busquei para mim mesmo, tantos anos perdidos na desesperada busca por dinheiro, fama e poder. Obtive tudo o que ambicionei passando por cima de todos que cruzaram meu caminho, roubando, enganando e sempre mentindo; mas de tudo o que consegui, só me restou o suficiente para pagar um tratamento digno de um mendigo; queria tanto me curar para ter outra chance, para poder fazer tudo diferente…

As badaladas parecem aumentar seu ritmo a cada segundo, ou será meu coração galopando em direção ao fim? Desesperado grito por socorro, mas parece não existir no mundo alguém que possa me ouvir, meus sentidos estão se tornando lentos, meu cérebro lateja, não consigo respirar, sei que meu corpo miserável está partindo.

No medo sufocante que sinto nestes minutos finais e sem perspectiva de salvação, sinto um aperto no peito e uma dor dilacerante, minhas ilusões se acabam neste instante de completo desespero, um turbilhão de visões bizarras habitam minha mente, seres negros como a noite gargalham mostrando sangrentos dentes afiados…Eles estão aqui para me levar para a escuridão eterna, não consigo enxergar direito, somente a imagem do relógio de parede permanece, enquanto minha alma está prestes a abandonar sua sofrida morada, ele soa alto, assustador, em funestas badaladas.

Banhado de suor, com a sensação de morte ainda presente, acordo assustado, estou no meu quarto, o coração aos pulos, minha cabeça está doendo horrivelmente, meu estômago se revira em náuseas, chego a esquecer que tudo foi somente um sonho e fico um bom tempo imóvel, com medo de sair da cama, um estranho pavor de estar realmente morto neste quarto tão escuro, onde só posso ouvir o badalar do relógio. Respiro fundo, abro bem os olhos e percebendo que o dia amanhecera já há algum tempo, levanto rápido, cambaleando, resolvido a dedicar este e todos os dias que restam de minha vida a efetuar mudanças radicais e evitar a qualquer custo que este terrível sonho – ou premonição, ou pesadelo – possa tornar-se realidade, para minha total desgraça. O chato é que eu sei que em no máximo meia hora já rirei deste sonho ridículo e cada vez mais repetitivo, será que esses

pesadelos frequentes são um aviso? Um efeito daquelas pílulas que comprei na Colômbia? Não, acho que só preciso de um colchão novo, ou talvez de um relógio de parede silencioso…De repente começo a me sentir estranho…Ainda estou fraco, preciso me deitar mais um pouco…Mas o que é isso? Tem alguém na minha cama…É impossível, eu acabei de me levantar e nem sequer saí do quarto…Estou delirando, é isso…Vou chegar perto para ver melhor…

Puxo o lençol que esconde o rosto do “invasor” e vejo aterrorizado que quem está na cama sou eu…Os olhos arregalados, a boca aberta…Estou morto!! Não, não pode ser! Preciso fazer alguma coisa, chamar alguém, ainda não deve ser tarde demais…Meu Deus que gargalhada é essa? Quem são vocês…Me soltem…Não!!Não!Nãaaao…

Por
Ana Rosenrot

 

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