abr 032017
 

 

Voltando para a casa após o término do dia letivo, a turma de trombadinhas do bairro, liderada por Pedrinho, apronta pelas ruas e calçadas desgastadas. Chutam baldes de lixos, caixas de papelão e garrafas pets, gritam asneiras para os moradores e espantam os animais que acham pelo caminho.
A última parada antes de voltar para seu lar, Pedrinho vê as janelas fechadas da residência de sua vizinha, algo incomum na rotina daquela idosa. A velha maritaca grita e balança as asas no interior de sua gaiola pendurada na varanda, o que desperta uma ou duas ideias na cabeça do jovem marginal.

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— Ei, rapaziada! — diz Pedrinho, tirando as mãos do bolso e apontando-as para a varanda da vizinha. — Se tem algo que me deixa puto da cara é prender animal que voa, ele tem asas, uai… Deixa o bicho voar!

— É! Isso mesmo! — respondem seus três seguidores em conjunto. — Deixa o bicho voar!

Pedrinho, encorajado por seus companheiros adolescentes, atravessa a rua, pula o muro e chega à varanda. Olha para os lados antes de tocar a gaiola, abre a pequena porta e agarra a velha maritaca.

— Voa desgraça! — ele grita ao atirar a ave sobre o quintal.

Sem prática, a velha maritaca não pôde fazer muito. Chocou-se com o muro, o que a deixou atordoada, o impacto a machucou o bastante para não conseguir desviar do ataque de um gato que passava ali perto e notou a confusão. Uma presa fácil para o bichano, o felino se empoleira no muro com apenas um pulo, carregando a velha maritaca com a boca, o grande gato corre e some entre as casas da vizinhança.
Sem reação, Pedrinho procura amparo nos olhares de seus companheiros de farra, os quais fugiram assim que o pobre animal chocou-se contra o muro. O jovem delinquente escuta um chiado atrás de si, ao virar o rosto seus olhos encontram a velha senhora que ali reside, ela o encara com lágrimas nos olhos, a boca aberta revela uma dentadura tão gasta quanto suas vestes.

— Antes morto do que aprisionado! — grita Pedrinho com a mão levantada.

— Pedro! — o berro de sua mãe quebra o breve momento de silêncio após o grito daquele jovem desafortunado. — Você não tem jeito, menino!

A mãe de Pedrinho invade a casa da velha senhora e agarra o jovem pelo braço, arrasta-o até a frente da vizinha e o faz encarar a idosa enquanto bate na cabeça do rapaz com um chinelo. Pedrinho tenta se defender inutilmente, não importa a posição de seus braços, as chineladas sempre o acertam na cabeça.

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— Pede desculpas, agora! — diz a mãe, já se acalmando.

— D…Desculpe. — foi o melhor que conseguiu dizer, entre lágrimas e espasmos. Sua voz, ainda que fraca e chorosa, foi ouvida por todos.

— Não se preocupe, minha senhora. — responde a mãe com um olhar piedoso sobre a idosa, que ainda permanece com a mesma expressão de susto. — Vou fazer esse vagabundo trabalhar e comprar outro pássaro para você.

Uma vez dentro do quarto, Pedrinho leva outra surra, esta com a arma especial da mãe para estas ocasiões, um singelo chicote feito com a planta espada-de-são-jorge. Os estalos entre as batidas são ainda mais altos que os gritos de Pedrinho, os vergões em sua pele, ainda maiores que seu aparente arrependimento. A mãe de Pedrinho, ao se cansar de bater, senta-se na cama ao lado se seu filho problemático, ela suspira com as mãos no rosto.

— Você nunca vai se ajeitar? — diz a mãe, em um tom triste. — Já tem dezenove anos e ainda nem se formou no ensino médio, não para em nenhum emprego, fica pra baixo e pra cima com seus amiguinhos drogados, só me trás dor de cabeça… Meus Deus. Eu vou conversar com seu tio, ele deve arrumar outro emprego pra você. Pode esquecer o dinheiro pra sua festa no sábado, nessa você não vai mais, e também vai ficar sem seu videogame…

— N… Não, não mãe! — retruca o jovem, com lágrimas no rosto. — Eu já me arrependi. Estou melhor!

— Vergões e lágrimas não deixam pessoas melhores. — responde a mãe, levantando da cama e virando as costas para seu primogênito.

— Então porque você me bateu? — grita o filho, zangado.

— Porque você merece… — diz a mãe, em prantos. — E porque eu não sei mais o que fazer.

Pedrinho deita na cama e olha para o teto, não pode sair do quarto, jogar videogame, ouvir música ou fazer qualquer barulho, seus castigos sempre são rigorosos. O silêncio não deve demorar muito, às dezessete horas termina o expediente de seu pai, prevê outra surra, esta muito pior, deverá acontecer.

O clima fresco junto ao silêncio e a cama confortável fazem com que o sono chegue de forma gentil. Pedrinho passa por um sombrio pesadelo, sua visão está vermelha, sente dor por todo seu corpo, não consegue se mexer ou gritar, cada segundo parece uma eternidade, sob o sofrimento e tormenta de dores, entre o caos e a perdição, Pedrinho vê uma luz, não qualquer luminosidade, mas sim a luz do sol que entra pela janela e atinge seus olhos. Ele desperta do que parece ser o pior sonho de sua vida, percebe que a luz já não está ali, ao olhar para a janela vê o rosto de sua vizinha, ela o encara sem expressão, fita-o de forma macabra e contínua, sua boca contorce-se como se estivesse furiosa. Pedrinho grita e a porta de seu quarto é aberta com violência.

— Pedro? — grita sua mãe. — Graças a Deus! A gente estava morrendo de preocupação! Onde você estava?

— O… O que? Que isso, mãe? — responde Pedrinho, a vizinha já não está mais na janela.

A mãe do jovem rapaz o abraça, ela chora em seu ombro.

— Uma semana, meu filho. Você deixou a gente sem notícias por uma semana! — ela se afasta e o olha nos olhos. — Onde você estava? Porque não avisou a ninguém? Achamos que você tinha fugido.

— Mas mãe. E… Eu não saí daqui.

— Para de brincadeira. — retruca a mãe, limpando as lágrimas. — Vem comigo, temos que avisar a polícia e os vizinhos que você voltou.

— A vizinha? — diz o garoto, encarando a janela.

— Você estava fora quando aconteceu, a Dona Helena se trancou em casa desde que você sumiu meu filho, de vez em quando a gente vê a silhueta dela pela janela, mas ela não sai mais de casa.

Pedro não consegue entender como seria possível ter visto a face macabra da vizinha na janela, ou onde ele mesmo esteve durante essa semana segundo sua mãe, talvez fosse melhor deixar pra lá, esquecer-se do ocorrido e tentar seguir em frente.
O primeiro dia na escola foi complicado para o jovem moço, ainda mais que o de costume. Por ser o mais velho e repetente, sempre foi um alvo para os professores, “um perfeito exemplo do que não ser” eles diziam para os outros alunos. Recebendo os olhares curiosos de seus colegas de classe, Pedro vai para seu lugar na fila, senta-se em sua carteira e abaixa a cabeça, o momento de calmaria perdura até que a professora de matemática toca-o no ombro, ela tem um sorriso torto no rosto, seu semblante sínico e irônico sempre foi um grande motivo para esta mulher receber o ódio dos pensamentos de Pedrinho.

— Voltou na hora certa Pedro. — diz a professora, seu tom sarcástico desperta o sentimento de arrependimento de ter saído de casa no jovem garoto, ele sabe que coisa boa não vem depois de uma frase dessas. — Espero que tenha estudado para a prova, se não vai ficar mais um ano nesta classe, de novo…

Pedro não responde à afronta de sua professora, ele acena com a cabeça e abaixa o olhar. Mesmo estranhando a atitude pacata do garoto, a professora continua com o programado, distribui as folhas de avaliação e pede silêncio aos alunos inquietos. O jovem moço analisa as perguntas da prova, sua estratégia consiste em resolver primeiro as questões mais fáceis, , assim teria tempo de revisar tudo depois, mas o problema aqui é que o garoto não consegue decidir qual a mais fácil, resultado de seu ano de vadiagem, nunca prestava atenção nas aulas ou estudava em casa, cada pergunta ou equação parece um dialeto já esquecido à tempos para o jovem. Ele sente seu corpo suar, está sentindo um calor insuportável.

— Professora. — diz Pedro enquanto puxa a gola da camisa. — Liga o ventilador, por favor.

Relutante, a professora atravessa a sala de aula e aperta o interruptor na parede, o velho ventilador de teto começa a girar sobre os alunos, o mais próximo fica exatamente à esquerda de Pedro, acima de seus colegas de farra, o zumbido do ventilador causa náuseas no jovem moço, sem pedir permissão, ele sai de seu lugar com a mão cobrindo a boca como se estivesse prestes a vomitar, chamando a atenção para si ele causa comentários entre os alunos e assim a revolta da professora.

— Pedro! — ela grita, impaciente. — Volte para seu lugar, agora!

O estalo foi alto, assim como a gritaria após o ocorrido. O ventilador soltou-se do teto e caiu sobre os alunos ali perto, as hélices girando em alta velocidade abriram feridas nas cabeças e ombros de três alunos, sangue borrifou sobre os alunos próximos aos atingidos e gritos foram ouvidos nos arredores da escola, teriam sido quatro vítimas se Pedro não tivesse saído de seu lugar.
A escola foi interditada, Pedro foi levado para a diretoria após o relato da professora “Foi culpa dele!” ela gritava para os policiais “Esse monstro pediu pra eu ligar o ventilador e saiu do lugar momentos antes do inferno cair sobre essas pobres crianças, ele é um psicopata, um assassino!”.
Enquanto os policiais conversavam com a professora, no interior na diretoria, Pedro aguardava o veredicto, apreensivo ele temia ir para a delegacia. A visão vermelha novamente invadiu os olhos de Pedrinho, o jovem moço sentiu a dor do inferno em seu corpo, ele grita até que a escuridão o abraça e assim, ele não sente mais nada.
Ao abrir os olhos, Pedro está em frente à casa de sua vizinha, já era noite e não havia lua ou estrelas no céu. Algo, uma sensação, o chama para dentro da casa, o rapaz movido por uma desconhecida influência entra na residência. Ao passar pela porta da sala ele vê algo que fez lágrimas escorrerem por seu rosto, o pássaro da vizinha, a mesma maritaca que havia morrido diante de seus olhos, estava empoleirada na televisão, com as asas abertas encarando o jovem moço.

— Venha e veja. — disse o pássaro, que voou para o quarto, sua é voz tão aguda que faz os ouvidos de Pedro sangrarem.

E então, o jovem vê, o corpo de sua vizinha pendurado por ganchos presos em sua cabeça. Nua e marcada, as palavras de um dialeto tão antigo quanto o inferno, contavam uma história macabra, a qual Pedro conseguia ler com maestria. Sem saber, ele passou a última semana escrevendo-a. Puxado pela mesma influencia de antes, o jovem rapaz começa a leitura, os versos macabros começam de um braço ao outro, depois dos pés, subindo pelas pernas, barriga, ombros e descendo pelas costas até os calcanhares, as palavras contam a história de uma bruxa que se apaixonou e foi traída por um barão, para sua vingança, ela evocou e aprisionou um demônio no corpo de uma ave, a bruxa enviou no anonimato o animal na gaiola para o barão, que, quando a tocou deu início à maldição. Todo aquele que toca a ave fica fadado à sofrer terríveis dores, fica sujeito a vontade do diabo por pequenos períodos de tempo, sofre assim como seus amigos e conhecidos, o que aguarda o guardião do animal é uma vida de dor e sofrimento. Uma vez que a ave é tocada, esta fica ligada ao indivíduo, este somente pode se livrar do fardo em seu último dia de vida, quando por destino da maldição, alguém tomará a ave para si, sem saber das consequências.

O fardo foi passado à diante.

Pedro sente as penas macias sobre sua perna. O jovem rapaz está paralisado, aflito por seu futuro. A ave escala sua perna, as finas garras perfurando sua pele e o sangue quente escorrendo pelas feridas. Pedro sente o bico em suas costas, seus olhos fecham e a presença do animal já não é mais sentida. O vento, causado pela respiração de algo, gela sua nuca, há alguém ou alguma coisa, atrás de Pedro, braços femininos o envolvem por trás.

Pedro recebe um beijo em sua bochecha, aquele beijo tão familiar.

— M… Mãe? — ele diz assustado, arregalando os olhos.

— Sim. — responde a mulher atrás dele, com a voz idêntica a da ave, aguda e irritante parece uma faca entrando em seu ouvido. — E não… Assumi momentaneamente este corpo para que você se lembre de que eu sempre estarei com você, querido, vou te atormentar para o resto da sua vidinha insignificante. Seja bem vindo, novo guardião.

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Pedro recupera seus movimentos, ele vira-se e encontra a ave dentro da gaiola, ela o encara de asas abertas. Pedro entende seu destino, o jovem rapaz, que se absteve de suas obrigações, agora carrega um pesado fardo, não deixar que ninguém mais se machuque, que ninguém mais sofra como ele sofrera. Com a gaiola nos braços, Pedro sai da casa, sua caminhada para o isolamento começa, a qual irá durar até seu último dia de vida.

                                                                                       Por
                                                                              Sávio Ba†ista

 

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