Contos do Horror Alternativo Apresenta: A Caronista


Nunca fui um cara medroso, muito pelo contrário, eu sempre adorei aventuras…viajei para lugares exóticos, fiz trilhas perigosas, participei e muitas vezes venci corridas em várias partes do mundo, eu e minha adorada motocicleta não tínhamos limites, eramos inseparáveis, intrépidos e um pouco loucos…até aquela maldita noite…

Não espero que alguém acredite na minha história, não sou ingênuo a este ponto, mas o que vou contar é a mais pura verdade, por mais bizarro e insano que possa parecer…

Eu voltava de uma corrida numa cidade pequena no sul de Minas Gerais, onde havia ganho o 2º lugar, eu estava feliz, os bolsos cheios com o dinheiro do prêmio e uma cintilante medalha no pescoço…Já era de madrugada, quase 3 horas e a Rodovia Interestadual 1 estava vazia…eu rodava tranquilo e satisfeito.

Mas de repente, a motocicleta simplesmente apagou, parando de funcionar completamente; não dava mais a partida, a chave não girava, parecia emperrada; foi com bastante dificuldade que consegui empurrá-la para o acostamento…fiquei furioso, não sabia o que fazer e meu celular não tinha sinal. Foi quando senti uma estranha presença e percebi um vulto se movendo ao meu lado, apontei a lanterna do celular, mas não consegui ver nada…“Já estou enlouquecendo, tenho que sair logo daqui” – pensei.

Foi quando a moto acendeu o painel do nada, dando sinal de vida, dei a partida e ela pegou de primeira, fiquei tão feliz que voltei para a estrada satisfeito e pronto para esquecer o acontecido; chegando em casa mandaria a moto para uma revisão e final da história.

Rodei normalmente por uns dois ou três quilômetros e então percebi que não estava sozinho: alguém ou alguma coisa ocupava a garupa da moto; dedos gélidos que mais pareciam galhos secos me enlaçaram pela cintura e apesar do traje impermeável que eu vestia, podia sentir perfeitamente o frio congelante do corpo “daquela coisa” que se apoiava em minhas costas, bem como um cheiro podre, que penetrava em meu capacete, me sufocando.

Eu tentava olhar para trás e não conseguia, no espelho a pouca claridade da noite só me permitia ver longos cabelos loiros serpenteando ao vento e o vestido branco quase em tiras que ela usava sobre o corpo putrefato.

A motocicleta pareceu ganhar vida própria e começou a acelerar, indo cada vez mais rápido; eu não tinha mais nenhum controle, o cheiro de podridão invadindo minhas narinas, o ar faltando, aqueles dedos me apertando cada vez mais, unhas frias me perfurando e não conseguia sequer gritar, pois minha voz não saía…eu via a morte em cada curva perigosa e chegava até a desejá-la…queria desesperadamente que tudo aquilo tivesse um fim…Só que a moto não reduzia, não parava, nem batia ou derrapava, somente seguia numa velocidade vertiginosa e impossível, muito superior a sua capacidade…O desespero, o cansaço e a sufocação me dominaram e finalmente eu perdi os sentidos, mergulhando num abismo de dor e inconsciência.

Acordei muitas horas depois, deitado no acostamento com o sol queimando meu rosto, a motocicleta estacionada e meu capacete sobre o banco; tudo na mais perfeita ordem. Levantei do chão com dificuldade, meu corpo doía, parecia que eu tinha levado uma surra, apesar de não ter nenhuma marca ou ferimento no corpo; caminhei lentamente até a motocicleta, mas não consegui sequer tocá-la, um medo insano me invadiu, fiquei trêmulo, incapaz de me mexer por um tempo; respirei fundo, tentei novamente e desisti ao sentir o pavor voltando; resignado, tirei o celular do bolso, verifiquei o sinal e pedi ajuda.

Toda essa loucura aconteceu há exatos 10 anos e desde então minha vida praticamente acabou, meus dias de corredor terminaram, estou falido, virei alcoólatra, tenho medo da minha própria sombra e ninguém acredita na minha história, dizem que devo ter caído da moto e delirado, mas eu sei que aquele horror foi real e ainda me persegue todas as noites, num pesadelo interminável.

Minha loira e podre caronista nunca me abandou e talvez fique comigo até o momento de minha viagem final, acho que ela não terá que esperar muito.

 

Por
-Ana Rosenrot-

 

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