Contos do Horror Alternativo Apresenta: O Sino de Vento – parte 2

Olá pessoal! Como prometido, aqui vai a última parte do conto. Espero que gostem! Deixem nos comentários o que acharam.

Para ler a Parte 1, clique aqui.

 

 

  • Sabe o que eu percebi? Eu não te dei a minha senha. – Ele começou a rir. – A senha do celular. Se você precisasse fazer uma ligação, ele seria completamente inútil para você.

Eu notei que ele estava rindo de nervoso.

  • Ainda bem que eu vim atrás de você, não é?
  • – Ele fez uma pausa. – Cecilia… me desculpa. O Lucas me disse que você acha que eu sempre o influencio a fazer coisas erradas.

Eu não estava acreditando que ele decidiu lavar a roupa suja naquele momento. Será que ele estava pensando que íamos morrer? Eu só torcia para que ele parasse com aquilo. Porque isso estava me deixando ainda mais nervosa.

  • Guto, relaxa. Depois a gente conversa sobre isso.
  • Não, eu só quero que você saiba que você está certa. – Ele parou de falar quando chegamos na porta de entrada do prédio. – Se a gente sair daqui…
  • Se? – Eu perguntei com a voz trêmula. – Cala a boca, por favor!

Eu me inclinei para o lado do Guto e olhei para o meu celular. Nós estávamos no caminho certo e então nos aproximamos da portaria.

  • Depois de hoje, o canal está oficialmente fechado.
  • Certo, o canal fechou! Eu vou te lembrar disso mais tarde!

Nos entreolhamos e eu percebi os olhos dele esbugalhados. O suor descia de seu rosto como cachoeira. Seu nervosismo era aparente. Chegava a ser engraçado ver um homem daquele tamanho, e que sempre foi um valentão, com medo daquele jeito.

Como bem sei, eu sabia que se tudo ocorresse bem, essa seria mais uma história insana do canal. Guto só estava sob muita pressão e falar aquilo era uma espécie de barganha com Deus ou seja lá com quem fosse. Não dei muita importância para isso. Voltei minha atenção para o interior do prédio.

  • Eu vou na frente. – Ele acendeu a lanterna do meu celular e entrou.

Eu olhei para fora, vi o céu mais escuro do que quando chegamos e mergulhei no interior daquele prédio.

  • Acende a lanterna do seu celular. – Eu pedi cochichando.

Ele pegou o celular dele e acendeu.

  • Lucas! – Guto chamou baixo.

A escada estava destruída. Já a porta do elevador estava até entreaberta, porém não havia energia para usá-lo. Nós estávamos sem alternativa. Eu dei uma volta em trezentos e sessenta graus pelo local com a lanterna e encontrei uma porta no fim do saguão principal. Nós caminhamos até lá e Guto a abriu. Atrás daquela parede havia numa espécie de salão de festas. Quando a porta foi aberta, um cheiro forte de algo estragado escapuliu de lá. O celular de Lucas estava cada vez mais próximo.

Nós continuamos a caminhar dentro daquela sala escura. Os objetos deixados ali se transformavam, através do nosso medo, em monstros prontos para dar o bote. A sobra deles projetada na parede era ainda mais assombrosa. Guto continuava chamar pelo amigo.

  • Eu não entendo. – Guto falou baixo.

Eu me aproximei dele e quis saber o que era.

  • Nós estamos exatamente em cima do ponto onde o celular dele deveria estar. – Ele me mostrou a tela do meu celular.
  • Só se ele está no andar de cima. – Eu supus.
  • Mas como eles chegaram até lá em cima? Que que tipo de brincadeira idiota foi essa desse pessoal da transportadora?

Naquele momento eu me lembrei de um vídeo em que um cara prega peças na namorada.

  • Por favor, seja sincero. Isso é alguma pegadinha sua e do Lucas? – Eu perguntei em um tom de voz normal.
  • Não! – Ele continuou cochichando. – Se fosse, eu também não ia te dizer, você não acha?

Me deu vontade de dar um tiro nele naquele momento.

  • É sério! Se for, é hora de vocês pararem com isso. Porque eu perdi um trabalho hoje e com cer…
  • Shii – Guto pediu.
  • O que foi?
  • Você ouviu isso?

Ele apontou a lanterna para a minha direção e eu senti um vento atrás de mim, Como se algo tivesse subido do chão para o teto. No entanto, eu mal tive tempo de me assustar com isso, pois algo caiu em cheio do teto, entre eu e Guto.

Nós gritamos e corremos para a porta.

  • O que era aquilo? – Eu perguntei.
  • Eu não sei. – Ele mirava a lanterna para o interior do salão.
  • Guto, eu acho que tinha mais alguém lá dentro.
  • A caixa! – E ele correu para o salão de novo.
  • O que?
  • Foi a caixa que caiu do teto! – Ele gritava enquanto corria.

Eu corri atrás dele e notei que tinha mesmo uma caixa lá quando ele a iluminou.

  • Puta que pariu! – Ele estendeu o braço esquerdo na minha direção, com a mão aberta. – Não vem aqui! – Choramingando ele pediu.

Eu parei a quase dois metros da caixa, sentindo meu coração pular no peito.

  • O que é?

Com medo, eu fui me aproximando da caixa e circulando para chegar do lado em que o Guto estava. Ele por sua vez, sentou no chão e começou a chorar.

  • Guto, por favor, fala comigo. – A cada passo a caixa estava mais próxima. Eu tremia tanto que mal conseguia focar a lanterna.

O outro lado da caixa já estava quase visível quando eu pulei uma pequena gaveta e parei do lado do amigo do meu namorado. Eu me virei e olhei para a caixa. Havia uma abertura na parte superior da lateral, indo até a metade da tampa. Era como se algo tivesse mastigado aquela parte. As extremidades do buraco feito no papelão estavam avermelhadas, parecia sangue. Eu mirei a luz no interior da caixa e vi as comidas do Lucas e o celular dele. Naquele momento eu tive certeza de que era a caixa dele. Eu abaixei e peguei o telefone.

  • Tinha alguma coisa atrás de você. – Guto tentou se levantar com pressa e caiu de costas.
  • Era isso que eu tentava te falar lá fora.
  • Antes da caixa cair, alguma coisa pulou atrás de você. – Ele se levantou. – A gente precisa sair daqui.

Eu senti calafrios. Contudo, não podia deixar meu namorado ali. Coloquei o celular dele no bolso de trás da minha calça jeans e agarrei o Guto pelo braço, o puxando contra a saída.

  • Não! Nós precisamos encontrar o Lucas. Ele ainda está vivo!
  • Você está louca?
  • Isso foi ideia sua! Então seja homem e me ajude a encontrar o Lucas!

Naquele instante, eu senti novamente um vento nos circular. Sem que eu notasse o que foi, Guto foi arrastado para o fundo da sala aos berros. Imediatamente eu corri para a saída. Os gritos dele eram aterrorizantes e me deixavam ainda mais apavorada. Aquela porta parecia ficar mais e mais distante, até que a minha mão suada deixou o celular escapulir até o chão. Não havia tempo para pegá-lo. Eu me guiei pela luz da rua e retornei ao saguão.

Chegando lá, eu ouvi passos vindo de fora, recuei e ao ouvir os gritos de Guto eu percebi que estava encurralada. Lembrei do elevador e, sem pensar duas vezes, eu passei com certa dificuldade por entre a porta semiaberta e me joguei no poço. Em poucos segundos eu atingi o chão com um impacto menos doloroso do que eu imaginava. Eu me virei para cima e vi sombras e barulhos de passos pesados. Os gritos de Guto foram diminuindo até cessarem. Tudo ficou em um silêncio enlouquecedor.

Eu me sentei e comecei a tatear o local. Na mesma hora eu me dei conta do que era aquilo que eu estava sentada. Eu não queria acreditar nisso, mas tinha quase certeza de que era o que eu estava pensando. Lembrei do celular do Lucas e o retirei do bolso. Depois de acender a lanterna eu percebi que estava certa. Eu estava em cima de uma pilha de corpos. Meu estômago revirou, mas eu não tinha tempo de passar mal. Chequei o local com a lanterna e percebi que havia uma escada e uma porta ao lado dela. Subir para o saguão, infestado de Deus sabe o que, não era uma opção inteligente. A porta era minha única saída.

Me ergui e comecei a caminhar sobre os corpos. Eu ouvia ossos se quebrando e a carne sendo esmagada pelo meu tênis. Meu estômago parecia como quando fomos na montanha russa do parque perto da casa de praia da família do Guto, eu estava por um fio de vomitar. O feixe de luz foi na direção da porta me ajudou a perceber que eu estava bem próxima dela. Eram muitos corpos e eu não estava nem um pouco interessada em saber como e quem os jogou ali. De repente eu pisei em um dos corpos que se contorceu de dor e agarrou meu pé. Eu soltei um grito e cai.

Tampei minha boca rapidamente e iluminei o corpo que pisei. Era o Lucas. Completamente ensanguentado, ele começou a fazer muito barulho, tentando dizer algo.

  • Shii, por favor, fica quieto. Eles vão nos ouvir.

E ele continuava murmurando. Eu o abracei e vi que um de seus braços tinha sido dilacerado.

  • Meu amor, você precisa fazer silêncio. Eles estão lá em cima.

E um grunhido ecoou de cima, aumentando para um som estridente. Como se fosse um animal chorando. Rapidamente, eu desliguei a lanterna e tapei a boca de Lucas.

  • Eu sei, eu sei que está doendo, mas você vai matar nós dois se continuar fazendo barulho. Eu vou tirar a gente daqui. Você precisa ficar em silêncio.

Enquanto aquele som bizarro ainda descia pelo poço, Lucas ficou em silêncio. Eu continuei abraçada nele olhando para cima. De repente o ruído parou e eu soltei o Lucas, olhei para ele e sorri, comemorando. Para o meu desespero outro barulho começou a ser feito. Passos ficavam cada vez mais altos. Eu olhei para a porta do elevador e não havia ninguém lá. Meus olhos foram um pouco para a direita e percorreram a escada do topo até o chão e depois eu olhei para aquela porta azul escura. Eles estavam descendo por ali.

Foi ai que eu me dei conta de que não tinha como escapar do prédio com o Lucas. No máximo eu sairia viva, se eu conseguisse. Chorando, eu deitei o meu namorado, acendi o celular, o coloquei sobre a barriga dele. Baixo, eu falei em seu ouvido que eu tinha um plano, mas que ele tinha que ficar imóvel. Eu ouvi a porta se abrindo e então corri para a parede, fingindo ser mais um dos corpos.

Na penumbra do lugar, eu vi dois deles entrarem. Com pequenos ruídos, era como se eles se comunicassem. Atraídos pela luz, eles foram direto para o Lucas. Foi quando eu pude notar a aparência nojenta deles. O corpo cascudo, lembrava uma barata gigantesca. Justo o bicho que eu mais tinha nojo. Os braços finos, faziam a associação ainda mais verdadeira.

Lentamente eu comecei a caminhar para a porta, enquanto aqueles dois seres analisavam Lucas. Quando eu cheguei ao lado da porta aberta, um terceiro deles surgiu, pisou na minha cabeça e seguiu pela pilha de corpos. Os três começaram a fazer barulhos mais altos, como se discutissem. Eu fui engatinhando porta a fora, quando vi sombras lá de cima e voltei, só que dessa vez para o outro lado da porta. Rastejando eu tentava atingir o ponto mais distante de onde Lucas estava. Voltei a cabeça de vagar para Lucas e notei que um deles pisou em seu braço ferido. Ele urrou de dor.

Os bichos se alvoraçaram e começaram a brigar pelo que parecia ser a janta deles naquela noite macabra. Mais do que rápido eu me rastejava para longe dali. De repente, um deles foi jogado em cheio em cima de mim. Me deixando sem ar. Eu permaneci imóvel, enquanto ele se virava deixando toda a sua gosma em mim. Grunhindo ainda mais alto, liberando um cheiro putrefato, ele voltou para a briga por comida.

Enquanto aqueles seres horrendos brigavam entre si e Lucas gemia, eu me recuperei e continuei me rastejando com dor para o lado oposto. Eu senti uma brisa de ar vindo da parede. Pensei que tivesse sido descoberta e fiquei imóvel. Mas o vento continuava vindo. Então, eu olhei para a parede e vi um estreito túnel ali. Eu nem quis olhar para o Lucas. Tentava me convencer de que não havia mais salvação para ele e que ele entenderia o que eu estava fazendo. Apesar de insegura, eu entrei no túnel com calma e fui rastejando para dentro sem nem pensar onde aquilo daria. Ao menos eu estaria longe daquelas baratas gigantes.

Aquela abertura na terra parecia ter sido feita sob medida para um corpo humano. Porém, humano nenhum conseguiria cavar aquilo com as próprias mãos para fugir daqueles seres. Intrigada ou não, eu continuava meu percurso. Os sons dos bichos foram ficando cada vez mais longe conforme eu avançava naquele buraco escuro.

Lucas começou a gritar e minhas lágrimas escorriam pelo rosto. O vencedor estava o matando. Eu já estava sem forças para continuar, mas eu tinha que escapar enquanto eles ainda estavam no poço do elevador.

Avancei mais alguns metros, até que avistei uma luz. O barulho da rodovia ali perto também estava mais perceptível. Eu já via a saída. Rastejei mais um pouco e cheguei no final do túnel que me salvara. Apesar de completamente destruída pelo que tinha acabado de fazer com o meu namorado, eu estava aliviada, quase feliz de ter escapado.

Pus a cabeça para o lado de fora, com medo e percebi que não havia nenhum deles ali fora. Rapidamente eu saí, ralando meus braços no concreto da abertura na parede do primeiro prédio. Eu caminhei pela lateral e olhei o estacionamento. Percebi que estava bem próxima do portão caído e consequentemente do carro. Levei a mão no bolso da frente e achei a chave. Fiquei ainda mais aliviada.

Correndo, eu fui até a saída do condomínio. Os grunhidos surgiram de novo. Porra! Fui descoberta!, era só o que eu pensava. Não havia tempo para reclamar, nem para olhar para trás. Eu corri até o carro, abri a porta e a chave caiu. Eu a peguei e entrei, foi quando percebi que estava do lado errado. Eu tinha entrado pelo lado do carona. Pulei para o outro banco, enfiei a chave na ignição e dei partida.

Acendi os faróis e vi que um daqueles seres estava do outro lado da grade que ainda não tinha caído. Eu dei ré e parei na rua. Mudei a marcha e pisei no acelerador. O pneu cantou e eu saí dali em alta velocidade. Pelo espelho eu conseguia ver o bicho correndo atrás de mim, mas eu acelerava mais e mais, até que ele pareceu desistir.

Eu já estava próxima da rodovia quando vi a policia e alguns carros ao redor de um caminhão tombado em uma parte da estrada. Haviam umas caixas jogadas por perto. Aquilo poderia ser bem esclarecedor, porém, eu só queria dar um fora dali.

Ao chegar em casa, eu estacionei o carro e entrei. Meu irmão estava na sala vendo TV. Ele olhou para mim e fez uma expressão de nojo.

  • Você foi violentada ai na rua? Ou você participou de mais um vídeo daquele viadinho do seu namorado?

Eu não era capaz de começar uma briga naquele momento com ele, se quer fui capaz de respondê-lo. Ouvi minha mãe e meu pai na cozinha. Um cheiro bom vinha de lá, provavelmente eles estavam cozinhando o jantar. Era bom estar em casa.

  • Querida, que bom que você chegou! – Minha mãe gritou da cozinha. – Vá tomar um banho, porque a janta já esta quase pronta.

Eu larguei a porta de entrada aberta e subi para o meu quarto. Quando eu cheguei lá, eu me aproximei do espelho e vi o sangue ressecado daqueles corpos e do Lucas sobre a minha pele. Havia também aquela coisa branca grudada por cima provavelmente era a gosma daquele ser que ressecou e agora se desprendia, esfarelando quando eu passava a mão. Era o sangue do Lucas. Me deitei no tapete ao lado da cama e desabei em choro.

O Furin que minha tia trouxe de presente para a minha mãe do Japão, e que estava pendurado na varanda lá embaixo, fazia muito barulho. Eu lembrei que minha tia havia dito que ele ajudava a proteger a casa de maus espíritos e interrompi meu choro, sorrindo. Um sentimento reconfortante de segurança preencheu meu corpo.

Subitamente o barulho daquele sino de vento parou. Em seguida, meu irmão gritou e depois meus pais também. Muito alvoroço vinha lá de baixo, como se fosse um terremoto movendo todos os móveis. Eu corri para a janela e avistei o porta-malas do carro de Guto aberto. Depois, eu senti um vento atrás de mim.

Por
TOM CARNEIRO

 

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