Contos do Horror Alternativo Apresenta: O Sino de Vento – parte 1

 

Olá pessoal! Pelo fato do conto de hoje ser mais extenso do que de costume, nós o dividimos em duas postagens. A primeira parte vocês podem conferir hoje e a segunda, e última parte, vai estar disponível semana que vem. Boa leitura para todos!

 

Era quase oito da manhã, a rua estava começando a ficar movimentada e nosso tempo estava acabando. A minha chance de convencer o meu namorado também estava se esvaindo. Eu e o Lucas estávamos dentro do carro e nossos olhos seguiam Guto levando aquela caixa de máquina de lavar em um carrinho para caixas rumo ao beco entre o banco e uma transportadora.

Guto desapareceu no escuro vão entre os dois prédios e eu olhei para Lucas, do banco de trás do veículo.

  • Você tem certeza que você quer fazer isso?
  • Cecília, nós já conversamos sobre isso. É para o canal!

Eu ri debochando e desviei o olhar para a praça à esquerda. Aquele canal do Youtube parecia ser a desculpa perfeita para qualquer estupidez que Lucas e seu amigo de infância queriam realizar.

  • Vai ser rápido! No fim do dia eu vou estar são e salvo em casa.
  • A questão não é essa! Luca, você vai fazer vinte e cinco esse ano, vai se formar, está na hora de você arrumar um emprego de verdade e parar com essas idiotices que você faz!
  • Ah então eu não trabalho? Não ganho grana?
  • Não foi isso que eu quis dizer!
  • Você acha que ser youtuber é fácil? Nós damos duro e se hoje temos aquilo tudo de seguidores e recebemos bem por cada vídeo que fazemos, foi porque nós trabalhamos muito para isso.
  • De que adianta receber uma nota preta, se você e o Guto gastam tudo em porcaria depois? Não fazem nada para crescer?

Lucas respirou fundo e virou para frente, tentando me ignorar. Mas eu investi em uma última tentativa.

  • Poxa, você é bom no que faz! Tira ótimas notas na faculdade… e é muito melhor que o Guto, você sabe disso! E agora você vai se sujeitar a isso que está prestes a fazer? Vai gastar trezentos e tantos reais por uma palhaçada?

Subitamente, ele se virou e ficou cara a cara comigo. A veia em sua testa parecia querer saltar de lá. Eu sabia naquele momento que uma bomba estava prestes a explodir.

  • Pelo menos eu estou ganhando algum dinheiro! Pago minhas contas e não preciso aguentar desaforo dos meus pais. – Ele abriu a porta do carona e começou a sair. – Você não precisa ajudar! Fica ai que o Guto te leva de volta para casa.

Fui derrotada. Dessa vez eu fiquei assistindo meu namorado entrar no beco e, por mais que estivesse chateada, eu sabia que havia um ponto de verdade no que Lucas tinha acabado de me dizer. Eu queria ir embora para casa e voltar para cama, mas havia prometido fazer aquilo. Promessa é dívida, então eu deixei o carro.

  • Me dê a câmera! Vamos acabar logo com isso! – eu disse quando me juntei aos dois.

Guto olhou para o amigo, sem entender nada. Provavelmente Lucas tinha dito que eu não ia mais filmar. Então, ele retirou de sua mochila a câmera e me passou, me indicando onde eu tinha que apertar para gravar.

  • São oito horas. Vamos começar? – Guto era a única pessoa animada ali.

Lucas assentiu com a cabeça e eu me aproximei dele.

  • Boa sorte! – eu desejei sem o tocar.

Como resposta, Lucas só sorriu de leve.

  • Cecília… agora é com você! – Guto informou.
  • Ok! No três. – E eu comecei a sinalizar com os dedos da mão esquerda uma contagem do um até o três.
  • Oi pessoal! Eu, Gutão, e o pequeno Luca estamos aqui hoje para mais uma tarefa insana. Roda a vinheta e eu volto para explicar como vai ser isso! – Ele fez uma pausa de alguns segundos e eu abaixei a câmera. – Não, não, não.. volta a filmar! Eu corto e enfio a vinheta ai depois. Bom, eis o que vamos fazer hoje…

Eu olhei para o Lucas que estava agora só de cueca e camiseta branca. Ele estava visivelmente desconfortável.

  • Vocês devem estar achando estranho eu só de cueca hoje.
  • Definitivamente não é porque queremos chamar a atenção do público feminino com esse corpinho magro e branquelo. – Guto riu.
  • Também não é porque está calor! Agora estão fazendo vinte graus!
  • Eu vou enviar o nosso querido Luca pelo correio, para a minha casa!
  • Bom, tecnicamente você vai me enviar pela transportadora.
  • Sim! Se te enviássemos pelo correio, talvez você só chegasse daqui alguns dias na minha casa. Morto! A transportadora, no entanto, nos assegurou que a encomenda – Guto apontou para o amigo. – chegaria ainda hoje se enviássemos de manhã.
  • Eu confesso que estou com um pouco de medo!
  • Ahh para com isso! Vai dar tudo certo. Eu espero! – Guto riu. – Então, vamos completar essa missão! Nós estamos num beco, do lado da transportadora. O Luca vai entrar na caixa, nós vamos fechá-la e postar na transportadora aqui do lado.
  • Pede pra eles deixarem a caixa de lado. – Nervoso, Lucas pediu.
  • Eu já escrevi na caixa que a encomenda é frágil e especifiquei qual lado ficará para cima.
  • Ótimo, então a gente se vê mais tarde. – Lucas abraçou o amigo e olhou para mim. Droga, como eu queria ter me despedido dele também!

Ele colocou os pés na caixa, deslizou e se ajeitou. A caixa estava em cima do carrinho, Guto pegou a alça, ergueu a caixa e apoiou o carrinho contra a parede da transportadora.

  • Bom, vamos selar esse túmulo! – Guto riu. – Preparado?
  • Não! – Lucas gritou. – Minhas bebidas e comidas!
  • Ah é! Não podemos esquecer disso. – Guto correu até sua mochila e retirou duas sacolas plásticas com compras que eles fizeram na noite anterior.

Ele entregou para o amigo, o lembrou de gravar tudo com seu celular e então fechou a caixa com uma fita. Como de costume, ele olhou para a câmera e fez uma careta. Eu desejei jogar aquela câmera no meio da cara dele.

  • Agora vamos despachar essa encomenda para a minha casa.

Guto pegou o carrinho e começou a movê-lo na direção da calçada. Eu podia ouvir uns pequenos sons de Lucas reclamando do movimento, mas quando chegamos na calçada, cruzando com outras pessoas, ele simplesmente ficou mudo. Através dos pequenos furos que eles fizeram no papelão, ele podia enxergar o exterior da caixa. Eu segui o Guto por trás e continuei filmando.

Quando entramos na transportadora, eu abaixei a câmera e gravei o envio da caixa sem que a funcionária percebesse. Meu coração estava a mil, com receio de que alguém descobrisse a verdade.

Eu fiquei a meio metro atrás de Guto enquanto ele preenchia um formulário e explicava com seu jeito extrovertido para a mulher que era aniversário da mãe dele e ele pretendia fazer uma surpresa.

Uma mensagem chegou no celular do amigo do Lucas, ele a abriu, riu ao lê-la, me mostrou e despois mostrou disfarçadamente para a câmera. Eu estou morrendo de calor aqui, Lucas reclamava.

  • O depósito é refrigerado, ne? – Guto se certificou.
  • Sim, recebemos muitas encomendas que precisam estar em um ambiente fresco. Eu fiquei mais aliviada, e tenho certeza que Lucas também, ao ouvir aquilo.

Uns dois minutos depois de preencher a ficha, um homem alto apareceu, pegou uns adesivos com a funcionária, colou na caixa e a levou para o depósito. Nós saímos dali, entramos no carro em silêncio e Guto deu partida no carro.

Um cara explicava no rádio que um grupo de estudantes tinha sido preso numa universidade perto por fazer experiências em humanos, o caso trouxe consequências catastróficas. Eu ficava imaginando o Lucas e o Guto sendo presos por essas loucuras deles. Eu nem dei muita atenção ao restante da notícia. Por todo o percurso eu me senti mal. Não sabia explicar se era um pressentimento ruim ou se eu simplesmente estava triste com a forma com que as coisas entre eu o Lucas ficaram antes dele entrar naquela caixa idiota.

Eu fechei a porta da frente, ouvi o carro do Guto se distanciar e subi a escada em direção ao meu quarto. A casa já estava vazia. Meus pais tinham saído para o trabalho e o irritante do meu irmão, para a escola. Minha queda na cama foi acolhedora. Apesar de eu estar me sentindo um lixo, foi gostoso e reconfortante poder voltar para a cama. Eu apaguei.

Um bip me acordou. Eu abri o olho e achei que tivesse sonhado. Virei para o lado, mas ouvi aquele bip novamente. Era o meu celular. Eu o peguei, tentei enxergar a tela, no entanto, minha visão estava turva. Esfreguei os olhos e eles foram se ajustando lentamente até eu conseguir enxergar que tinha chegado uma mensagem. Era quase uma da tarde. A mensagem era de Lucas:

  • Meus pés dormiram.

Aquilo me fez rir.

  • Tenta trocar a posição. – Eu enviei.

No mesmo instante a mensagem foi visualizada e três bolinhas apareceram se movendo.

  • Não consigo me mover. E eu estou com medo da caixa cair ou rasgar.

Eu pensei comigo mesma que aquilo era culpa dele, ninguém o obrigou a entrar numa caixa estreita. Me levantei e fui até o banheiro. Minha bexiga estava estourando. De lá eu ouvi outro bip. Voltei pro quarto e peguei o celular.

  • Me desculpa por hoje cedo. Eu entendo o que você disse. Você se importa, mas eu tenho uns planos para montar uma coisa legal e o canal tem tudo a ver com isso. Você sabe que foi pra isso que comecei a fazer comunicação social.

Confesso que me derreti naquele momento. O Lucas era uma pessoa sensível e humilde o suficiente para reconhecer quando estava errado. Mas eu também tinha exagerado um pouco naquela manhã.

  • Relaxa, nós dois nos excedemos. Mas está tudo bem.
  • Jantar hoje na minha casa? Vou precisar me alimentar depois dessa aventura.

Eu tinha faculdade e naquele dia não poderia faltar por causa de um trabalho, mas conseguiria vê-lo depois.

  • Eu passo na sua casa depois da faculdade. Prepara uma coisa gostosa. Eu vou descer para almoçar, porque preciso me encontrar com o meu grupo por causa do trabalho de hoje.
  • Tudo bem. Bom trabalho! Beijo.

Eu enviei dois corações e desliguei o celular.

 

O relógio da biblioteca marcava quatro horas da tarde quando o meu celular quebrou o religioso silêncio do local. Eu atendi a ligação antes que a bibliotecária percebesse que era o meu celular. Ela fez um shii nervoso e voltou para perto da prateleira onde organizava alguns livros.

  • Cecilia! Alô Cecília. – Eu ouvi o Guto me chamar enquanto caminhava para fora da biblioteca. Eu bati a porta e fui caminhando pelo corredor. – Oi? Desculpa, eu estava ocupada. Tudo bem? – Meu coração acelerou.
  • Acho que sim. Você tem falado com o Lucas?
  • . quer dizer, eu falei com ele por volta de meio dia.
  • Droga! Há uma hora a gente estava conversando e ele disse que começou a ouvir uma movimentação no depósito. Então pegaram a caixa e levaram para um caminhão. Estava tudo indo bem até que ele parou de responder. Eu tô preocupado.

Eu comecei a ficar ofegante e tentei ser positiva.

  • Olha, mantenha a calma. Ela pode estar em um ponto da cidade que não tem sinal.
  • É, você tem razão. Eu vou continuar tentando falar com ele e vou aguardar a caixa chegar aqui em casa. Pode ser que está chegando.
  • Isso, vai me atualizando por mensagem. É melhor.

Nós desligamos e os pensamentos mais bizarros possíveis começaram a passar pela minha cabeça. Eu imaginei que ele foi descoberto e foi preso, ou que passou mal e desmaiou, ou que o caminhão foi assaltado e os ladrões o encontraram. Meus pulmões pareciam estar ficando sem ar, mas eu precisava voltar para a biblioteca. Aquele trabalho valia muita nota.

Eu tomei um gole de água no bebedouro, respirei fundo e voltei para o meu grupo. Os noventa minutos seguintes foram torturantes. Vãs tentativas de focar no meu trabalh levavam meus pensamentos de volta para Lucas. Para completar, Guto parecia estar surtando na casa dele, me enviando mensagens de minuto em minuto. A última, me informava que ele havia ligado para a transportadora e ninguém o atendia.

Faltava meia hora para começar a aula e consequentemente a apresentação do meu trabalho, quando meus colegas de sala desceram para fazer um lanche. Eu me lembrei que o celular do Lucas tinha um mecanismo de localização que ele ativou e me passou quando ele foi fazer um vídeo com o Guto em uma favela no Rio.  Desesperada, eu corri para a sala de informática.

Talvez por nervosismo, eu não consegui entrar no site. E por três tentativas eu acabei em uma tela de aviso de erro. É incrível como tudo dá errado quando você tem pressa. Foram quase vinte minutos desesperadores, até que eu me recordei de algo que o próprio Lucas me disse uma vez. Não há nada que um tutorial no Youtube não te ensine hoje em dia. Aquela fagulha de memória salvou minha tarde.

 

  • Guto, eu achei o Lucas. – Eu informei por ligação, correndo para fora da faculdade.
  • Como? Onde?
  • Eu localizei o celular dele, por aquele site… ah, eu não sei explicar! Enfim, ele está do outro lado da cidade. Você escreveu certo o endereço na transportadora?
  • Claro! Do outro lado onde, Cecília?
  • No bairro Matadouro. Isso faz algum sentido para você?
  • Puta que pariu! Como assim faz algum sentido para mim?
  • Porra, Guto! Vocês já foram lá? Conhecem alguém de lá? – Eu me dei conta de que estava andando sem rumo no estacionamento.
  • N-não! Eu nunca fui nesse bairro. Esse lugar ficou quase abandonado depois que aqueles prédios populares pegaram fogo há uns três anos. Droga! Isso é saindo da cidade.
  • Tudo bem. Olha, eu abri o localizador pelo meu celular, me pega aqui e a gente vai até lá.

Menos de cinco minutos depois eu já estava no carro de Guto, tremendo. Ele também parecia estar fora de si. Eu notei naquela hora que ele realmente gostava do meu namorado. Além disso, se acontecesse algo com o Lucas, ele jamais se perdoaria, pois aquela ideia imbecil veio dele próprio. Em pouco mais de quinze minutos nós chegamos no bairro.

Segundo o meu celular, a caixa com o Lucas dentro estava bem a nossa direita, no condomínio popular que pegou fogo. Meu coração acelerou mais ainda quando eu vi aquele lugar às ruinas.

  • Está ali dentro! – Eu apontei para um portão caído. – Eu não vou entrar ai!
  • Eu vou estacionar aqui fora e você fica no carro com o meu celular e a chave. Se eu não voltar, você vai até a polícia. – Ele falou com uma feição perturbada olhando para o conjunto de prédios. – Me dê o seu celular.

Ele estacionou o carro e o desligou. Deixando a chave na ignição. Nós trocamos de celular e ele saiu do veículo. Eu o vi entrando cautelosamente e depois checando a tela do celular.

Uma olhadela para trás me apavorou quando vi só mato e mais ao fundo, a rodovia. O sol estava se pondo e isso era ainda mais assustador. Deixei escapulir um palavrão e olhei de novo para o corredor que formava entre os dois prédios da esquerda e os dois da direita. Provavelmente naquele espaço era onde os moradores estacionavam seus carros.

Minha mão tremia. Talvez ficar sozinha naquele lugar seria pior do que entrar. Eu estaria mais protegida com o Guto. Decidida, eu puxei a chave, abri a porta e sai.

  • Guto! Me espera.
  • Não! Não! Volta pro carro.
  • A gente se separar é uma péssima ideia.

Acredito que ele lembrou dos muitos filmes de terror que viu e acabou concordando comigo.

  • Eu acho que ele está naquele último prédio. – Guto apontou para o prédio mais acabado dos quatro, onde provavelmente o fogo começou.

Nós caminhávamos por entre restos de mobílias, roupas e brinquedos. Eu rezava para não encontrar restos de alguma pessoa ali. Quanto mais nos aproximávamos do último prédio à esquerda, mais aquela inundação de sujeira carbonizada parecia aumentar. Eu podia ouvir nitidamente a respiração cansada e assustada de Guto.

 

… CONTINUA

 

TOM CARNEIRO

 

Comments

comments