mar 072017
 

Frágil

 

Enquanto eu estava naquele compartimento de carga do caminhão em movimento, a minha percepção era constantemente presenteada com reflexões sobre aquelas pessoas, particularmente no que diz respeito ao desprezo que os mais fortes sentem para com os mais fracos, e em como o ódio se confunde com o desejo nas mentes distorcidas. Por que esses homens odeiam tanto as mulheres? Eu me perguntava, ao mesmo tempo que começava a perceber que, possivelmente, por detrás de todo esse ódio, existe uma fragilidade desesperada para sempre se manter no poder, um jeito medonho e intimamente patético, cultivado em suas mentes desde que vieram ao mundo, de se provarem perante si e para uma sociedade tão decadente quanto, seja por meio da crueldade, seja por meio do desumano. Desumano sim, pois, o ser humano em si, assim como qualquer outro animal, não é um ser maligno. A maldade começa quando ele se distancia da própria natureza, não reconhecendo mais quem é e muito menos os seus iguais, e quanto mais eu os analisava e pensava no assunto, mais pena deles eu sentia, assim como me tocava que eu havia entrado numa tremenda enrascada.

            Todos aqueles rostos possuíam uma história, todos aqueles corpos de meninas, apertados uns contra os outros, portavam um coração que batia de modo amedrontado, acuados e esmagados pela força do ódio daqueles homens, e as mentes talvez buscassem se apegar à mínima forma de esperança. Todos, dos de alma mais fervorosa à mais cética, tendem a imaginar tal possibilidade de salvação em momentos como aquele, ou até em piores. Quem sabe Deus as ajudaria. Quem sabe outros, munidos de sede de justiça, combatentes do crime, surgissem, assim como nas belas histórias, para dar fim àquela malignidade.

            Bem, eu não esperava nenhum milagre do tipo, pois meu coração ansiava por coisas mais sombrias.

            Só que devo confessar que a situação me preocupava, fosse a possibilidade da minha morte, fosse o modo como minha família encararia aquela minha aventura. Entrementes, pode não parecer, mas eu não era como aquelas meninas, mesmo que minha aparência fizesse com que qualquer um duvidasse dessa afirmação. Sendo assim, mantive a calma e obsevei com atenção aquele cenário, aquele compartimento de carga escuro e sacolejante, as meninas choramingando à minha volta, sentadas no chão, cabisbaixas, acuadas pelos dois homens armados. Um deles, um loiro bonito e de rosto estranhamente simpático, me encarava com um interesse evidente. Analisei-o com atenção. Era alto e musculoso, muito branco e de olhos claros, segurando um revolver com a mão direita e com a esquerda girava entre os dedos uma medalhinha com a imagem de Jesus Cristo. Religioso? Isso não importava, pois, tolos são aqueles que definem o caráter de alguém por detalhes tão simples. Homens maus banharam a história da humanidade em sangue, sendo estes religiosos ou científicos.

            Escutei atentamente o modo como seu coração batia, como sua respiração trabalhava, senti o sutil cheiro de suor em sua pele, sobrepujado pelo forte aroma do perfume doce, e também um cheiro a mais, um cheiro que apenas eu alí podia sentir com clareza; o cheiro do desejo.

            Busquei imaginar como ele me via: uma menina magrela usando um vestido florido, com a pele morena e delicada, um rostinho de boneca, com grandes olhos brilhantes e misteriosos, cor de mel ao sol, emoldurados por uma volumosa juba de cachos crespos e de um natural tom de castanho alourado. Pode ser que eu fosse deliciosamente exótica a seus olhos, e que minha incomum calmaria lhe atraísse a curiosidade, mas o que estava claro para mim era que o que ele realmente desejava era a minha juventude, o meu aspecto frágil que me fazia aparentar ser ainda mais nova do que a maioria das meninas com treze anos de idade. Ele notou meu olhar e sorriu para mim. Seria ele o primeiro com quem eu devia me preocupar?

            O homem ao lado pigarreou, alheio em pensamentos, e ouvi os outros dois homens rindo de alguma piada na cabine de direção e, novamente odiando ter que assumir, fui dominada por um lapso de covardia. Pensei se não seria melhor enquanto me parecia ser possível, fugir e ligar para André, que certamente estaria encrencado por ter me ajudado em tal empreitada, e voltar para casa, permitindo que aquele meu precoce rito de passagem para a vida adulta fosse coordenado por meus parentes na segurança dos arredores do Casarão Violeta. Mas não, tratei logo de me recompor. Aquele rito de passagem era meu, e eu decidiria como ele seria realizado.

            O caminhão diminuiu a velocidade, parando com um breque agressivo que fez uma das meninas cair sobre a que estava ao lado. Uma nova voz pôs-se a falar com o motorista, avisando que a carga deveria ser logo levado para dentro e inspecionada.

            Carga. Não sei porque fiquei surpresa com essa definição. Afinal, se eles nos vissem como algo a mais do que mercadorias, talvez não estivessem em um ramo tão hediondo. Sim, éramos carga, gado, éramos mais fracas, e por serem mais fortes se sentiam no direito de fazerem o que quisessem conosco. Isso só alimentou a minha vontade de cumprir com os meus planos, pois, não era mesmo os maus quem eu havia desejado encontrar? Nisso eu tinha obtido sucesso, mesmo que tal objetivo acabasse por ter ganhado uma complexidade que eu, tolamente, não havia previsto (minha mãe está certa, quando diz que minha impetuosidade me faz meter os pés pelas mãos).

            Fomos descarregadas com certa brutalidade desnecessária pelo moreno avantajado que nos havia feito companhia, e me vi diante de uma espécie de sítio, algum lugar escondido no interior de Minas Gerais, tomado pelo mato. Na mesma hora pus meu faro e audição para trabalharem, captando que, além dos dois homens que haviam viajado conosco no compartimento de carga, os outros dois da cabine, e aquele outro que nos recepcionava, mais outras duas pessoas nos esperavam dentro da casa de paredes descascadas, um deles era mulher. A tarde já se aproximava do fim, e a luz alaranjada do sol se pondo por detrás das árvores já me presenteava com os primeiros arrepios do que prometia ser a noite.

            O loiro não parava de me olhar, e foi justamente ele quem nos conduziu para dentro da casa, para o interior de uma sala empoeirada, contendo um sofá rasgado e um banco de madeira, nos enfileirando ombro à ombro, e acariciando meus cabelos com uma intimidade irritante.

— Uma gracinha de anjinho, você é — ele sorriu, piscando um olho para mim, enquanto a mulher que eu havia farejado anteriormente entrava no recinto.

— A qualidade ultimamente anda fraca — a mulher disse, franzindo o nariz. Tinha por volta dos quarenta anos, magra, de cabelos tingidos de loiro, tocando e observando menina por menina do mesmo modo que olharia um objeto à venda.

            O loiro relatou como haviam conseguido cada uma de nós: três meninas, por volta dos 16/17 anos, já estavam no ramo fazia algum tempo, se prostituindo nas ruas, já as outras duas, uma de treze anos e a outra com quatorze, haviam sido venditas pela própria família.

— E essa magrela? Parece nova demais — a mulher perguntou, levantando meu rosto bruscamente.

— As mais novas são as mais especiais — o loiro respondeu. — Para toda idade e tipo existe um cliente que paga de acordo. E veja como é bonitinha e exótica, com essa pele morena e esse cabelo claro, vai fazer sucesso com os gringos, pode apostar.

— Como conseguiu ela? Parece ser bem cuidada.

— E se eu disser que esse anjinho caiu do céu? Apareceu para nós enquanto fazíamos uma parada na última cidade, disse que tinha fugido de casa e estava procurando emprego, vê se pode! — ele respondeu, só sorrisos, provavelmente imaginando o quão sortudo era ao me encontrar. O encarei de volta, sem desviar o olhar.

            Ele seria o primeiro, decidi.

            Em seguida, uma por uma, a mulher nos levou para um quartinho, tão empoeirado quanto a sala, onde nos mandava tirar a roupa para avaliar nossas partes íntimas. Todas as meninas pareceram temer o momento como se aquilo fosse um teste que decidiria se elas continuariam vivas ou não, e as duas mais novas, as que foram vendidas pela própria família, entraram em desespero, se entregando ao choro, coisa que só irritou a mulher, que as esbofeteou, mandando-as parar com as lágrimas. Eu fui a última a entrar no quarto, e não posso mentir, odiei aqueles dedos ossudos levantando meu vestido e me tocando, e quando ela constatou em voz alta “essa ainda é moça”, senti vontade de fazê-la engolir os próprios dedos, mas por fora eu me mantinha calma e submissa. Talvez eu deveria ter assumido uma postura mais desesperada, e assim, quem sabe, ela não me encararia com desconfiança, mas infelizmente sou uma péssima atriz.

— Tranque a porta do quarto e deixe-as aí, — ela disse ao loiro — logo mais trarei algo para elas comerem. Vamos levá-las aos compradores amanhã cedo. Só agora os malditos se decidiram. Odeio esses ricos metidos a besta que acham que devemos ficar à mercê da indecisão deles.

— Mas ficamos à mercê do dinheiro, o que é a mesma coisa — o loiro concluiu, fechando a porta, mas não sem antes lançar um último olhar a mim. Algumas meninas voltaram a choramingar assim que ficamos a sós, as mais velhas discutiam a situação entre si, aos sussurros, uma delas dizendo que se soubesse que seria tratada daquela forma não teria aceitado o trabalho. Já eu me mantive perto da porta, alheia ao que elas diziam e buscando ouvir o que se passava fora do quarto. A noite começava seu domínio do lado de fora; eu podia ouvir os grilos e animais noturnos começando seus afazeres, suas cantorias, podia sentir a força magnética da lua, que já deveria estar surgindo, gorda e exuberante no céu.

Sim, não havia como negar, eu tinha tentado abocanhar um pedaço grande demais para a minha boca. Mas eu precisava pensar, afinal, se o pedaço é grande demais, então devo dar mais de uma mordida. Apurei os ouvidos e comecei a revisar as possibilidades: Eram cinco homens e uma mulher lá fora, todos armados. Um deles estava recebendo ordens do loiro para ir acompanhar a mulher até a cidadezinha mais próxima e comprar comida, então logo mais seriam dois a menos no local. Mas minha preocupação era a possibilidade de chegarem mais deles. Estava na hora de ser realista, aquilo tinha que ser resolvido o mais rápido possível e naquela mesma noite, antes que o número de inimigos aumentasse, então comecei a bater na porta incessantemente, assim que ouvi a mulher e seu comparsa saírem numa moto. Foi o motorista do caminhão quem abriu a porta, praguejando, um gordo atarracado e com cara de buldogue raivoso.

— Eu preciso ir ao banheiro — falei, pensando se ele seria tão forte quanto sua quantidade de gordura. Com certeza não era rápido, e carregava o revolver de qualquer jeito na cintura, sem temer nada, já que éramos apenas meninas fracas. Ele resmungou de volta, dizendo que só iríamos ao banheiro quando fosse a hora e que se eu voltasse a perturbar, me calaria com uma surra bem dada. Enquanto isso, mesmo que ninguém alí notasse, meu corpo inteiro tremia, e senti que suava entre as dobras do corpo, junto de uma febre cada vez mais crescente. Logo eu não conseguiria mais me segurar.

Mesmo assim voltei a protestar, e quando ele já se preparava para cumprir sua ameaça, o loiro chegou para interceder, assim como eu esperava.

— O que a anjinha deseja, não está confortável, junto de suas novas amiguinhas?

— Eu preciso ir ao banheiro — respondi, e pela primeira vez decidi encenar o olhar mais inocente que algum dia poderia ser visto em meu rosto, apoiado pelos meus tremores que poderiam ser perfeitamente compreendidos como demonstração de medo. O loiro deu seu sorrisinho, mostrando os dentes muito brancos, lançando-me um olhar como se pudesse ver o que existia por baixo de meu vestido.

— Por aqui, anjinha.

— Albertina disse que as meninas… — o gordo ia começar a protestar, mas o loiro o cortou.

— Para o inferno o que aquela velha disse, devemos cuidar bem de nossas meninas. Agora saia daqui, vá ajudar Cristovão a ver se está tudo certo com o caminhão. Não quero aquele ferro-velho dando defeito no meio da estrada como daquela vez.

O motorista saiu resmungando, enquanto o loiro voltou a trancar a porta, sem dar atenção a uma das meninas que dizia que também precisava ir, e me conduziu gentilmente por um corredor até um apertado banheiro, precário quanto o resto da casa, indicando o vaso com a tampa levantada, dando a entender que ficaria para assistir o que quer que eu fosse fazer. Eu não me sentei no vaso, ficando de pé, no meio do banheiro, sem dizer nada, me perdendo por alguns segundos na pequena janela do recinto, por onde eu podia ver um pedaço da lua, sentindo seu brilho arrepiar os pelinhos da minha nuca.

— Não vai mais se aliviar? A vontade passou, ou a vontade que está sentindo é outra? — ele disse, fechando a porta atrás de si.

            Me mantive calada, ainda olhando o luar.

— Quantos anos você tem, anjinha? Onze? doze? Parece tão novinha, tão pura — disse baixinho, se ajoelhando para ficar da minha altura e tocando os cachos de meu cabelo e meus ombros. — E você está tão quente.

— O senhor também — respondi, devolvendo o olhar. O cheiro do desejo dele dominava o ambiente, e sua mão direita, que até então tocava as pontas do meu cabelo, se atreveu a alisar minha perna, subindo para dentro de meu vestido, mas seu percurso foi interrompido quando eu segurei seu pulso.

— Mas que força, anjinha!

— Não sou anjinha, sou outra coisa — retruquei, delicadamente, e antes que a noção da falta de lógica do que acontecia lhe atingisse, notando que era muito estranho que uma mãozinha esguia e delicada como a minha pudesse afastar seu pulso com tanta força, e que meus olhos estivessem exibindo um brilho amarelado assombroso, desferi-lhe um soco com a mão livre, direto em seu pomo de adão, afundando-o para dentro do pescoço, junto de um som de algo se partindo. Ele não conseguiu gritar, caiu para trás, engasgado e sem respirar, e, não perdendo tempo, montei sobre sue peito e apertei-lhe o pescoço. A coisa não foi tão fácil quanto pensei que seria, mas não demorou para seu corpo parar de se debater. Um a menos, pensei, e talvez aquela deveria ser a melhor forma, daquele modo silencioso, sem alarde, limpo, que eu pegaria um por um, mas eu sabia que com aquela maravilhosa lua lá fora, a coisa ganharia outros rumos.

            E a dor veio violenta, uma pontada aguda no estomago que me fez tapar a própria boca para abafar o grito. Minha respiração estava acelerada, meu corpo inteiro começava a ter espasmos involuntário, enquanto a febre queimava como se me tivessem atirado numa fogueira. Entenda que eu poderia ter feito aquilo antes, dentro do caminhão, ou antes de entrar nele, eu poderia ter feito aquilo à luz do dia e a hora que eu quisesse, pois não era a primeira vez que eu me transformava e eu já tinha um controle espantoso para a minha idade, pois não ganhei meu dom por meio da mordida de outro, eu havia nascido com ele. Ora, as lendas tem seus pontos verdadeiros; a lua cheia atiça pessoas como eu com um desejo descontrolado, reduzindo os novatos mais fracos a uma bestialidade desprovida de consciência, mas eu não sou fraca.

            Minha primeira lua cheia, meu esperado rito de passagem, havia finalmente começado.

            Eu já sabia que quanto mais fácil você se entrega a transformação, mais rápido e menos dolorosa ela é, mas minha preocupação era em conter o rugido que eu severamente segurava na garganta, o que alardearia todos os meus inimigos. Retirei o vestido com cuidado, antes de sentir meu corpo se alongar, os músculos aumentando, os ossos crescendo, a dor estalando a cada modificação, meus gritos sendo abafados em gemidos sufocados, enquanto uma pelugem grossa e escura cobria minha pele e garras negras saltavam por debaixo das unhas das minhas mãos e pés. Por fim me encarei no espelho, notando as orelhas pontudas sobressaindo da juba de cabelos, cabelos estes que lançavam sombras sobre o meu rosto selvagem. Lá estava o focinho curto, os caninos sobressalentes como os de um cachorro, e o olhos, grandes, de um amarelo luminoso, como os olhos de um diabo. Eu estava pronta.

            Meus sentidos, que já são apuradíssimos em minha forma humana, duplicam quando a fera é liberta, nada escapava aos meus ouvidos, o que infelizmente, por inexperiência, deixou-me ligeiramente confusa; eram muitos sons e cheiros explodindo a todo segundo, junto da visão captando tons de cores impossíveis na forma humana. Aquilo tudo poderia acabar me atrapalhando se eu não me focasse. Saí para o corredor, ouvindo o choro das meninas no quarto e de alguém falando com elas rispidamente.

— Dá pra ouvir essa choradeira de vocês lá do lado de fora. E que nojeira é essa aqui? — dizia o moreno com cara de poucos amigos, que eu conhecia do compartimento de carga do caminhão. Eu o observava do escuro do corredor, ele estava diante da porta do cativeiro, apertando com força o braço de uma das meninas mais novas, que, fosse por medo, ou por ter segurado durante tanto tempo, havia urinado na roupa. O odor de urina e pavor se mesclavam ao cheiro de ódio presentes no homem, causando-me uma ligeira náusea, atiçando a minha ferocidade, e quando eu dei por mim eu já tinha me movido. Corri e saltei para as costas dele, abraçando-lhe com a as pernas e os braços, afundando os dentes em seu pescoço musculoso.

            Acertei de mal jeito uma veia grossa, fazendo com que um jato de sangue jorrasse sobre o vestido da menina que estava sendo ameaçada por ele. Todas elas berraram de pavor, se apertando no canto de parede mais distante. O moreno quase não teve tempo de gritar, caindo de joelhos enquanto eu lhe rasgava a carne e chupava-lhe o sangue, me deliciando com a malignidade empregada em cada gole daquele sangue espesso. Mais uma vez eu me via agindo sem pensar, as meninas estavam em pânico e seus gritos alertariam a todos. Fiz um sinal com o dedo ensanguentado, pedindo silêncio, tentei dizer para elas se acalmarem, mas me lembrei que minhas cordas vocais já não eram mais as mesmas e o que saiu da minha boca foi um gruído rouco. Imaginei como elas me viam, se me reconheciam como companheira de cativeiro, mesmo por debaixo dos pelos, garras e rosto animalesco, e aproveitando aquela atenção paralisada delas, mergulhei um dedo na poça de sangue da minha vítima e escrevi com maestria na parede próxima: Vou salvar vocês. Esperem aqui e confiem em mim.

            Fechei a porta do quarto das meninas e puxei o corpo ensanguentado para as sombras do corredor mal iluminado. Olhei para o cadáver ainda quente, a camiseta regata ensopada de vermelho, a cabeça virada em um ângulo estranho, exibindo olhos esbugalhados, fitando o nada. Lambi-lhe o rasgo no pescoço, concluindo que seu sangue e carne ainda me eram deliciosos, mas que a vontade de devorá-lo perdia consideravelmente a graça após a morte. Eu queria aqueles malditos vivos e se debatendo, e eu podia ouvir claramente os outros dois fora da casa, sentir o cheiro de suor em suas carnes – meus sentidos eram bombardeados de todos os lados, mas eu precisava manter a calma, manter meu foco, pois talvez eu não teria a mesma facilidade com que tive com os outros.

            Me esgueirei até a janela mais próxima, de onde eu podia ver os outros dois conversando entre si enquanto verificavam o motor do caminhão, uma música da rádio tocava um sertanejo entediado na maior altura. Pelo jeito eles não haviam ouvido nada, entretidos pela música e pelo assunto que debatiam. O caminhoneiro de barriga avantajada estava deitado sob o veículo, mexendo sabe-se lá em quê, enquanto o outro, o tal de Cristovão, um negro alto e de aparência mais jovem do grupo, se distanciava despreocupado em direção à uma árvore próxima. Farejei o ar a minha volta, e sim, eram apenas aqueles dois; cheiro de suor e desodorante barato, de óleo de motor, de urina sendo expelida… pus-me nas quatro patas, me movendo veloz, mas sem fazer barulho. Meu plano era silenciar o motorista o mais rápido possível, antes de partir para o outro, só que infelizmente, assim que puxei-o pelas pernas de debaixo do caminhão, errei o golpe, rasgando-lhe o peito. Ele gritou e, no reflexo, acertou minha cabeça com uma pesada chave de fenda, alertando o rapaz que urinava.

            O tal Cristovão correu em nossa direção sem nem ao menos fechar a braguilha direito, e assim que me viu, uma criatura feroz estraçalhando o ventre de seu amigo, sacou a pistola e pôs-se a atirar, errando todas as vezes, a não ser quando me acertou no ombro. “Burra! Você está fazendo tudo errado!”, gritei comigo mesmo, em pensamentos, sentindo a dor aguda próximo a clavícula, arreganhando os dentes e dando meu rosnado mais ameaçado para aquele jovem homem que então notava, com os olhos arregalados de incredulidade, que a arma estava descarregada. Ele tentou levar a mão aos bolsos, talvez lá guardasse uma carga reserva, mas não teve tempo para tal, pois assim que me viu ficando de pé e pondo-me em sua direção, ele correu a toda mata à dentro, e isso só me excitava ainda mais. “Isso, corra!  Fuja! Deixe-me persegui-lo! É assim que eu gosto!”. A dorzinha em meu ombro esquerdo não era nada. Eu me deliciava com aquela caçada, mesmo sendo tão fácil, pois quando me pus a correr nas quatro patas o alcancei num estante, cabeceando-lhe as pernas e o fazendo cair e rolar pelo chão.

            Ele voltou a apontar a arma descarregada e eu a arranquei de suas mãos, vendo o quanto era patético aquele homem tão grande caído à meus pés, com as lágrimas de desespero no rosto apavorado. Mas o ódio ainda estava alí, sim, liberado por cada poro de sua pele, junto do cheiro do medo e da maldade, me fazendo salivar de desejo. Ódio por não compreender, ódio por estar assim tão vulnerável, por seus músculos e valentia não significarem nada, ódio manifestado quando me aproximei, farejando seu rosto, e fui golpeada por um soco bem dado. Mas o que representava aquele golpe desesperado em mim, além de mais um elemento para atiçar minha vontade? Cravei minhas garras em seu abdômen musculoso, afundando meus dedos na carne enquanto ele se debatia, berrando e pedindo que Deus intercedesse em sua ajuda; o sangue quente jorrando por entre os meus dedos, e confesso que quando provei daquele sangue eu já não estava mais com controle sobre meus instintos, eu era apenas um animal selvagem me banqueteando, mastigando os órgãos internos com gulodice, puxando-os para fora com a boca e sacudindo-os no ar antes de triturá-los com os dentes, rosnando de prazer enquanto os engolia.

            Comi o quanto pude, o que é uma quantidade considerável em minha forma de fera, deixando seu coração, a parte mais deliciosa para o final, lembrando que alguns antigos de minha espécie acreditam que ao devorar um coração, se devora parte da alma de sua presa. Se isso é verdade, não posso afirmar. Me pus de pé, me sentindo meio pesada e lenta, cheia de sangue e carne, e um tanto entediada, como uma criança que enjoa do brinquedo novo, mas feliz, pois meu rito de passagem estava realizado com louvor, e eu já me preparava para dar o fora dalí, quando ouvi o som da moto na estrada de terra próxima. Albertina e o outro homem estavam voltando.

            Bem, eu não precisava me dar o trabalho de pegá-los, nem que fosse apenas para voltar e resgatar minhas roupas que eu havia deixado naquele banheiro. Eu poderia simplesmente percorrer quilômetros naquela minha forma, encontrar algum telefone e ligar para meu amigo André, mas eu não podia. Eu havia prometido que voltaria para ajudar aquelas meninas, não foi? Os malditos estavam voltando até onde elas ficaram e eu tinha que fazer algo, não por eu me sentir justiceira ou heroína, mas sim pela minha ideologia de sempre cumprir as minhas promessas.

            Um grito de espanto da mulher ecoou antes mesmo de eu alcançar as bordas do quintal da velha casa, e eu me mantive nas sombras dos arbustos altos, assistindo enquanto ela reconhecia o corpo do caminhoneiro.

— Que porra é essa que tá acontecendo aqui? — ela se perguntou, puxando uma pistola da calça jeans, e o homem fez o mesmo, pondo-se também em alerta, mas antes que ambos tomassem qualquer atitude com relação ao corpo estraçalhado ao lado do caminhão, um imprevisto aconteceu: uma das meninas não aguentou me esperar e estava em fuga, se esgueirando logo pela porta da frente, na esperança de que ninguém a visse, o que infelizmente não aconteceu.

            Seja por ódio, ou apenas por puro reflexo, Albertina atirou certeiro no peito da menina. A garota apenas deu um gemido sufocado, cambaleando para trás e caindo com as costas na parede, a mancha de vermelho escuro tomando forma rapidamente em seu vestido surrado. Ouvi sons de espanto e de correria das outras meninas dentro da casa, elas não estavam muito longe da cena.

            — Ligue o caminhão e se prepare para darmos o fora daqui. Eu vou pegar as outras — ela ordenou ao homem, resignada e praticamente imperturbável. Ela era uma mulher forte, isso eu não podia negar, mas eu vim de uma família de mulheres fortes, cada uma a seu modo, e aquela não ganharia minha admiração, pois, do que vale tamanha força se é direcionada à propósitos tão decadentes? E a conclusão que cheguei, enquanto ela entrava na casa, dando gritos às meninas para que se reunissem, enquanto o corpo da criança sangrava desfalecido à parede, é que eu queria matá-la mais que todos os outros. Pior do que aqueles homens que odeiam as mulheres, é esta mulher que odeia a si mesma, que aceita a visão maligna que estes homens pregam pela terra durante toda a história da humanidade, e que decide se submeter e fazer parte de tal visão, ascendendo na vida por meio de escadas banhadas do sangue de seus semelhantes, com a desculpa de que é assim que as coisas são.

            Sim, eu devoraria seu coração, junto de sua força, e daria um propósito melhor a ela.

            O homem abriu a porta do caminhão, pondo as chaves que havia retirado do morto na ignição, e correu para os fundos do veículo para abrir o compartimento de carga onde as meninas ficariam, mas antes que ele alcançasse as portas eu o interceptei, puxando-o pelas pernas para debaixo do caminhão, onde eu me escondera. A arma de fogo caiu de sua mão e uma de suas pernas acabou entrando na passagem entre o para-choque e a carroceria, deixando-o preso, e fazendo com que eu, na minha ferocidade, lhe desmembrasse uma das pernas.

            No mesmo instante em que ele gritava e seu sangue chovia por sobre meus pelos, Albertina vinha fustigando as meninas para o lado de fora, e para não perder tempo larguei a perna do homem e avancei para minha inimiga. Mas é claro que não foi tão fácil, pois ela era ligeira e sua mira não era nada má, me acertando um tiro no pulmão direito e outro de raspão na cabeça.

            Rolei para o lado e saltei com todo o meu vigor para o meio das árvores próximas, sentindo uma dor maldita que pareceu piorar o desnorteio dos meus sentidos. Minha cabeça zunia e a confusão dos sons de todas as coisas ao meu redor, do grilo mais tímido ao choro mais alto das meninas, me dava tonturas, enquanto meu peito e têmpora latejavam. Eu sabia que ela havia acabado de atirar em mais uma menina, fosse para descontar a sua raiva, fosse por não ter mais nada a perder, e em seguida em mais outra; eu ouvia os disparos, os berros de pavor, o silêncio dos corações que paravam de bater… Aquilo não podia continuar! Não podia!

            Um rugido poderoso rompeu de minha garganta ao mesmo tempo que saltei de volta para as luzes do quintal, recebendo o tiro que seria para uma quarta garota, mas não deixei de avançar, mesmo quando ela voltou a apertar o gatilho até descarregar a arma na minha carne, e quando por fim a alcancei, pude ver a mim mesmo, a fera selvagem e implacável no reflexo de seus olhos arregalados, enquanto eu atravessava minhas garras pela carne abaixo de suas costelas até lhe alcançar o coração, puxando-o para fora e o enfiando inteiro na minha boca.

            Albertina caiu para frente, aos meus pés, e talvez em seus segundos finais de vida tenham me visto mastigar seu coração, engoli-lo, e soltar o meu uivo mais poderoso em direção ao céu noturno.

            Mas meu regozijo vitorioso não durou muito, pois logo em seguida a força dos ferimentos me venceram, e a luz da lua se apagou para mim também.

 

 

            Se foi um sonho ou um lapso de consciência, não tenho certeza, mas lembro de ver os rostos das duas sobreviventes me encarando do alto, cheios de espanto. “É aquela menina, eu sabia que era ela!”, exclamou a mais nova. “Seja o que for, morreu nos salvando, e não podemos fazer mais nada”, disse a mais velha, abraçando a outra, e o mundo novamente voltou a desaparecer ao meu redor.

            A consciência voltou junto com a dor, faltando poucos minutos para o amanhecer. O céu ganhava belos tons de roxo, azul e dourado, e o canto dos pássaros envolvia o ambiente; elementos adoráveis que contrastavam diretamente com o cheiro de morte impregnado a minha volta e com as marcas de sangue seco sobre minha pele. Sentia meu corpo moído e meus movimentos desengonçados, e a primeira grande ação que tive foi me virar bruscamente para o lado e vomitar. As balas de revolver que haviam permanecido na minha carne jaziam ao meu lado; meu corpo as havia expulsado enquanto eu voltava a forma humana. Limpei a boca com as costas da mão e só então notei o objeto que cobria meu corpo: era meu próprio vestido, que eu havia deixado no banheiro no começo da noite anterior, e era óbvio que alguma das meninas sobreviventes o tinha achado e coberto meu corpo com ele, numa ultima homenagem a quem elas acreditavam estar morta. E onde elas estariam? Nenhum cheiro, nenhum som de movimento, nenhum humano vivo nas proximidades, mas aquilo poderia mudar a qualquer momento. Estava na hora de voltar para casa.

            A moto não estava lá, acredito que as duas meninas a usaram para partir, e eu nem mesmo avaliei se tinha altura suficiente para alcançar os pedais para dirigir o caminhão, até porque nunca havia dirigido e não sei se poderia ser uma boa ideia ser pega usando aquilo. Esfreguei as marcas de sangue da minha pele que se soltaram com facilidade, já que o sangue de nossa espécie se desintegra mais rápido que o normal, tentei sem muita eficiência tirar as folhas e terra do meu volumoso cabelo, e repassei minhas próximas ações. Por fim, respirei fundo, torci o vestido de um modo que eu pudesse segurá-lo com a boca e pus-me a correr mata adentro, cada vez mais rápido, convidando o lobisomem interior a assumir a forma de meu corpo mais uma vez. Eu já havia visto minha mãe e os outros fazerem aquilo e era minha vez de conseguir a proeza de me transformar enquanto corria, sentindo a fera, sua excitação pela liberdade, deixando as quatro patas levantarem poeira atrás de mim até eu não ser nada mais do que um borrão escuro cruzando o mundo e a imaginação dos que eu possivelmente encontrasse no caminho.

 

            Mais tarde naquele dia, enquanto André dirigia um dos elegantes carros negros da nossa família, de volta para casa, e me alertava de como ele estava em maus lençóis por compactuar com aquela minha ideia maluca, e de como o nosso líder estaria possivelmente pensando em formas terríveis de castigar esses dois filhotes irresponsáveis, os rostos das meninas não saiam de minha mente. Eu lembrava de cada um deles, principalmente dos das duas sobreviventes, chegando até mesmo a ter vislumbres imaginários de uma moto na estrada. Onde elas estariam? Eu me perguntava, até onde o combustível da moto as levariam? Será que foram espertas o suficiente para procurar por dinheiro nos bolsos dos mortos antes de partirem? E para onde iriam? Pois, diferente de mim, essas meninas não tinham para onde voltar.

            Por um momento eu cheguei a acreditar que meu plano egoísta e infantil de comandar meu próprio rito de passagem havia ganhado um propósito mais ideologicamente construtivo ao matar aqueles vilões da inocência, mas de repente, enquanto eu pensava nas duas meninas, eu já não tinha mais certeza. Talvez seja fácil desmembrar estes vilões, mas não posso dizer o mesmo de salvar suas vítimas. Entrementes eu fui tomada por uma nova ideologia que eu gostaria de deixar registrada. Ora, por mais que pessoas da minha espécie consigam absoluto controle sobre seus poderes e instintos, por mais que convivamos em perfeita discrição e equilíbrio com os demais, uma hora ou outra devemos agradar a nossa fera interior, que sempre deseja o sabor da carne humana, e sendo assim, deixo aqui o meu recado:

            Estejam alertas vocês, homens que odeiam as mulheres, pois nada é mais saboroso para esta menina delicada aqui do que estes seus corações malignos.

 

 

– FABIO ALEX –

Para mais contos e ilustrações, curtam a página do Fabio AQUI

 

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